TOMÉ DISSE: MEU SENHOR E MEU DEUS
At 2,42-47
Sl 117
1Pd 1,3-9
Jo 20,19-31
Neste segundo
domingo da páscoa a liturgia nos fala da vida da comunidade cristã e da
dificuldade de crer no ressuscitado depois da sua morte.
Os Atos dos Apóstolos, livro escrito
provavelmente por Lucas, narra para nós o retrato da primeira comunidade cristã.
O texto nos apresenta uma comunidade perfeita, ideal a ser imitado por todas as
comunidades cristãs. Os membros dessa comunidade eram unidos, tinham mesmo uma
comunhão de vida, partilhavam seus bens, escutavam o ensinamento dos apóstolos
e eram perseverantes. Este ideal apresentado sabemos, por experiência, que é
muito difícil de ser praticado, contudo, continua sendo o modelo que ainda hoje
nossas comunidades são convidadas a imitar. É assim mesmo que se deve viver
como comunidade de fé.
Desse modelo de comunidade, a
Igreja, seguramente, iluminada pelo Espírito, organizou e sistematizou a sua
vida litúrgica e pastoral. É exatamente aquilo que tentamos viver na nossa vida
cristã cotidiana. Sobre esse modelo se assentam as colunas de sustentação da
vida eclesial: LITURGIA, CARIDADE e EVANGELIZAÇÃO. A celebração litúrgica se
organiza assim: escuta da palavra, comunhão fraterna, eucaristia e orações. Saindo
da celebração litúrgica somos convidados a partilhar os nossos bens com quem
necessita, deixando de lado o nosso egoísmo e o apego, para em seguida sair
para anunciar e evangelizar com a Palavra e com o nosso testemunho. Tudo isso
deve ser feito como faziam os primeiros cristãos: com alegria e simplicidade de
coração (At 2,46).
O evangelho deste domingo, escrito
por João, já no seu final, mostra a narrativa que fala das aparições do
ressuscitado. É necessário, pois, entender, que Jesus depois da ressurreição,
não ficou permanentemente com seus seguidores. Em alguns momentos especiais
Jesus se fazia ver, aparecia. Nas suas manifestações a mensagem principal era
de conforto, pois os discípulos estavam com muito medo. Ele muito bem sabia que
o medo paralisava. O ressuscitado tentava transmitir segurança e tranquilidade
aos seus discípulos, os principais escolhidos para dar continuidade à sua
missão. Dizia: “a paz esteja convosco”. Em seguida mostra as marcas da sua
crucifixão. Certamente queria assegurá-los que o ressuscitado era o mesmo
crucificado. Não era um fantasma, nem outra pessoa, era ele mesmo, não ocorrera
uma descontinuidade, uma ruptura. Depois torna a oferecer a “paz” e faz um
envio. Esse envio é um movimento iniciado pelo Pai e que Jesus delega aos seus
seguidores: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20, 22). Ao final sopra
sobre eles o “Espírito” para irem ao mundo perdoar os pecados, tornando-se agentes
da misericórdia.
Este
texto nos lembra do relato da Criação descrito no livro do Gênesis. Deus fez um
homem de barro e sopra sobre ele um hálito. Esse sopro dá vida, anima e faz
caminhar. Soprando o Espírito Jesus confere aos discípulos, participantes da
nova criação redimida por ele na cruz, a força, a vida e o ânimo para gestarem
uma nova humanidade pelo Evangelho e pela Graça e continuarem a sua missão.
Este
trecho do evangelho também nos fala do episódio de Tomé. Esse discípulo é
descrito como descrente. Porém, parece mesmo é que Tomé vivia no seu mundo, no
seu egoísmo, preocupado apenas com suas coisas, com seus negócios. Enquanto os
outros estavam reunidos, Tomé estava ausente, sabe Deus onde. Ao receberem a
notícia que alegremente os seus colegas dão sobre a aparição de Jesus, Tomé
simplesmente ignora e duvida. Com essa atitude ele desmerece e desrespeita toda
a comunidade reunida. Em resumo ele diz: “vocês são todos mentirosos e eu não
acredito no que vocês falam”. Na semana seguinte o ressuscitado aparece, de
novo no primeiro dia da semana, dia em que a comunidade escolhe para reunir e
celebrar a eucaristia. Dessa vez Tomé estava e Jesus aparece e se direcionando
para ele, manda que ele mesmo tire sua dúvida pondo o dedo nas suas chagas.
Nesse momento Tomé de descrente faz a mais bela profissão de fé: “Meu Senhor e
meu Deus”. Jesus é reconhecido não apenas mais como Jesus, mas como Deus.
Nas
nossas comunidades de fé também encontramos tantos Tomés, que tem dificuldade
em acreditar no testemunho da comunidade. Cresce nos nossos dias o número de
ateus e agnósticos. A fé na ressureição é uma VERDADE transmitida. E essa
verdade somente conseguiu chegar até os nossos dias porque tantos seguidores e
convertidos, tomados pela confiança e não pela descrença nos que fizeram a
experiência com o ressuscitado, foram capazes de eles mesmos tornarem fiéis transmissores
da ressureição. E essa verdade só conseguiu chegar até nós, depois de dois mil
anos, exatamente por ser verdade. Uma mentira jamais sobreviveria tantos
séculos, e certamente, ninguém se aventaria a dar sua vida por uma mentira.
Quantos mártires deram a vida por causa da fé, inclusive até os nossos dias?
Podemos
celebrar alegremente este tempo de páscoa e louvar a Deus pela fé que temos
como dom que Ele nos deu. Somos felizes por isto: “Bem-aventurados
os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29).
Padre Nicivaldo
Evangelista
