Sinal
de veneração e de comunhão
Um gesto presente em
quase todas as culturas e religiões é o beijo. Quer ser sinal de afeto,
atenção, respeito, amor para com alguém a quem queremos manifestar atenção e carinho.
Beijam-se também os objetos, uma imagem, a foto de uma pessoa querida.
A liturgia, desde a
antiguidade, assumiu esse gesto, referido seja a pessoas como a objetos. Santo
Ambrósio observava que é “um privilégio dos seres humanos expressar com a boca
os sentimentos do coração e indicar, com as palavras da boca, os segredos
pensamentos do nosso espírito” (Hexameron,
6,68).
Na Bíblia, o beijo e o beijar se encontram
em numerosas ocasiões. Para recordar só algumas passagens do Evangelho, lembramos
a pecadora que beija os pés de Jesus, para lhe manifestar reconhecimento e
respeito; Judas, ao contrário, com um
beijo traiu o Filho do homem. Neste caso, o comportamento do discípulo usa um
gesto que manifesta carinho e amor, num sentido contrário. São Paulo, aos seus
cristãos escreve: Saudai-vos uns aos
outros com o beijo santo (Rm 16,16; cf. ainda, 1Cor 16, 20; 2Cor 13,12; 1Ts
5,26), e São Pedro: Saudai-vos uns aos
outros com o beijo do amor fraterno (1 Pd 5,14).
Na liturgia, o beijo aparece várias vezes.
No início e no final da missa, o sacerdote beija o altar, símbolo de Cristo, em
sinal de veneração. Esse gesto é muito antigo, em uso desde o IV século (cf.
IGMR 123.169); o ministro, no final da proclamação do Evangelho, beija o livro
dizendo: “Pelas palavras do Santo Evangelho, perdoai-nos, Senhor” (IGMR 134).
Na sexta-feira santa, todos que participam da celebração, beijam a santa Cruz,
manifestando devoção, apreço e amor para com Aquele que doou sua vida pela
nossa salvação.
Recordamos, enfim, o abraço ou beijo da
paz. Antes da Comunhão, quem preside convida a todos para se darem um abraço de
paz: “no Espírito de Cristo ressuscitado, dai-vos um sinal de paz”. É um gesto que vem da Tradição eclesial, e
manifesta, de modo visível, o amor recíproco entre os seguidores de Jesus, e
recorda o dom a paz que o Ressuscitado deixou aos seus discípulos (cf. Jo
20,19-23).
Os Padres da Igreja testemunham o costume
do beijo da paz. São Justino, pelos meados do II século, escreve: “Terminada a
oração, nos abraçamos com um beijo recíproco” (I Apologia, 1,65); São Cirilo de Jerusalém: “Não pensem que este
beijo seja semelhante ao que os amigos se dão nas praças... Esse beijo é
símbolo da fusão dos espíritos e da exclusão de todo ressentimento”; São João
Crisóstomo escreve: “Quando estamos para nos aproximar da santa mesa, somos
convidados para nos amar reciprocamente e dar uns aos outros um santo abraço.
Por qual motivo? Do momento que estamos separados nos corpos, neste momento, nós
unimos as almas trâmites o beijo... como faziam os apóstolos que eram um só coração e uma só alma. É assim que
precisa se aproximar dos santos mistérios, estreitamente unidos uns aos outros!”
O gesto de paz é colocado em momentos
diferentes nos diversos ritos. O rito romano o coloca ligando-o ao Pai-nosso.
Um recente documento da Congregação do Culto divino pede para que seja feito de
forma discreta, mas com sinceridade de coração. Isso não significa mortificar as
expressões próprias da cultura, mas dar ao gesto o sentido profundo do
Evangelho e da Tradição litúrgica, isto é, que seja sinal de verdadeira
disposição para superar toda forma de divisão e viver no amor do Senhor, uns
para com os outros, numa verdadeira fraternidade.
Dom
Armando