19. Bater-se no peito
Quando o povo cristão se reúne para
celebrar os santos mistérios, antes
de tudo, é chamado a dispor seu coração para se apresentar diante do Senhor na
autenticidade e na pureza. Cada um/a deve fazer espaço ao ‘nós’ na liturgia: “as
nossas solidões se desfazem, porque Cristo está entre nós” (Romano Guardini); Ele está no meio de nós, respondemos à
saudação de quem preside a celebração.
Para entrar no âmago da vida, toda
pessoa deve limpar o seu íntimo, onde mora – também – o mal. Disse Jesus: O que sai da pessoa é que a torna impura.
Pois é de dentro, do coração humano, que saem as más intenções... (Mc
7,20-22).
Seguindo uma praxe antiga, que se
inspira na Bíblia, a liturgia propõe o gesto de bater-se no peito. Recordamos o publicano
no templo que, conta o evangelista Lucas (18, 10-14), ficou a distância e nem se atrevia a
levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem compaixão
de mim, que sou pecador!’ (18,13). As multidões que assistiam à morte de
Jesus, viram o que tinha acontecido e
foram embora, batendo no peito (Lc 23,48).
Encontra-se esse gesto já no Antigo
Testamento. Jeremias (31,19) escreve: Depois que me fizeste voltar, eu me arrependi; depois que me fizeste
compreender, bati no peito. Em Ezequiel (21,17-18) se lê: Grita e geme, filho do homem... Por isso,
bate no peito.
Desse modo, manifesta-se a vontade de se
reconhecer pecadores, isto é, a atitude mais própria do estar diante de Deus.
Por isso, no início da celebração eucarística, quem preside convida o povo a
‘reconhecer os próprios pecados’. É gesto usado já pelas primeiras comunidades,
como atesta o antigo livro da Didaqué
(n. 14): “No dia do Senhor, reunidos, partam o pão e deem graças depois de
ter confessado os seus pecados, a fim de que o seu sacrifício seja puro”.
O texto litúrgico
Confesso a Deus todo-poderoso é uma fórmula
antiga; nela, cada um, também quem preside, coloca-se diante de Deus e dos
irmãos para reconhecer seus pecados
‘em pensamentos, palavras, ações e omissões’. É deixar Deus mesmo fazer a
verdade em nossa vida. Na segunda parte, suplica-se a Maria, aos Anjos e Santos e a todos os irmãos e as irmãs – eles também pecadores – mas todos unidos pela comunhão dos santos, como membros da
Igreja.
Santo Agostinho dizia: “Com certeza, irmãos, porque Deus o quis, sou
sacerdote. Sou pecador, com vocês bato no meu peito, com vocês peço perdão, com
vocês espero na misericórdia de Deus” (Sermones
135,6).
Na Oração
Eucarística I, o sacerdote bate no peito pronunciando as palavras ‘e a nós pecadores’. Os ministros se
reconhecem pecadores diante da assembleia. Está claro que o gesto não teria sentido
sem uma atitude interior, manifestando no íntimo respeito a Deus e a própria pequenez
diante do ‘Três vezes Santo’. Escreve o liturgista José Aldazábal: “A linguagem
do corpo nos ajuda a expressar a fé interior. O gesto externo é a realização
global – alma e corpo – dos nossos sentimentos: continuamente os manifesta e os
alimenta. Rezar de joelho, genuflectir, se bater no peito, dobrar a cabeça:
tudo isso nos recorda constantemente a nossa condição de frágeis criaturas, dá
força às nossas palavras, ajuda a nossa fé”.
Esse gesto penitencial serve, ainda,
como expressão alegre de louvor com o canto do Glória, ‘hino triunfal’ a Cristo-Deus. Santo Agostinho (Sermones 67,1) dizia aos seus fiéis que se batiam no peito todas as vezes que
ouviam as palavras confessar /confesso:
“Essas palavras não significam sempre ‘acusa dos pecados’, mas também ‘louvor,
glorificar a Deus’ como nas palavras de Jesus em Mateus 11,25: Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra
ou no salmo 118/117: Celebrai o Senhor,
porque Ele é bom”.
Dom Armando