LEITURAS:
Ex 34,4b-6.8-9
Dn 3,52-56
2 Cor 13,11-13
Jo 3,16-18
Neste domingo, dia 11 de junho, a Igreja celebra o dia da Santíssima
Trindade. Esta festa foi introduzida no calendário litúrgico por volta de 1350,
portanto, temos quase já 700 anos desta liturgia. Entretanto, a reflexão e
compreensão da designação trinitária já aparece na Igreja primitiva, claramente
no Novo Testamento, no Evangelho de Mateus 28, 19 quando Jesus faz o mandato de
pregar o Evangelho e também em 1Cor 12, 3-5; e 2Cor 13,13. Santo Agostinho
(354-430), Padre da Igreja, escreveu uma belíssima obra falando da “Trindade”. Assim
se compreende que o conhecimento do Deus Uno e Trino sempre fez parte da vida
dos cristãos, desde o início.
Antes de mais nada precisamos compreender que DEUS, sendo a Santíssima
Trindade, é mistério. Este mistério de revela a nós, seus filhos, em forma de comunhão.
Deus é união profunda de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, por isso
mesmo, comunhão. O mesmo Deus se revela em três pessoas, mas que apesar de serem
distintas, são uma na unidade. Esta é uma unidade tão profunda e comum que
podemos dizer: Deus é comum-unidade. O teólogo e escritor
Leonardo Boff em um dos seus livros denomina Deus como a “Trindade é a Melhor
Comunidade”.
Somos, pois filhos deste Deus que se revela a nós como comunhão. A
divisão não existe em Deus, a distinção sim. Assim Deus é Uno-Trino-Comum e
Distinto. Nem sempre somos capazes mesmo de compreender este mistério tão
profundo, talvez porque em si mesmo o mistério não existe para ser explicado,
mas para ser acolhido e contemplado. Neste sentido somos convidados, depois da
contemplação, a viver imitando essa comunhão do Deus Uno e Trino.
Não é de se estranhar que a maioria de nós cristãos católicos-protestantes-pentecostais
fazemos uma confusão quanto a compreensão de Deus. Normalmente identificamos
Deus apenas com o Pai e esquecemos das outras pessoas divinas. Talvez por essa
divisão que passa pela nossa incompreensão, a traspomos também para as nossas
relações, e por isso criamos tantas divisões. Isto mostra que a teologia que
todos nós cristãos carregamos, define também as relações que construímos ou
deixamos de construir. A comunhão de pessoas que é Deus deve ser a comunhão de
pessoas que somos nós, não como trindade, mas como comunidade e humanidade.
Em Deus não existe hierarquia, nem graus, nem degraus. Deus é
absolutamente comunhão, comum-união. Jesus, na sua missão e encarnação, por
diversas vezes ensinou a viver em comunhão numa atitude humilde de quem sempre
está pronto para servir. Infelizmente muitos não compreenderam a sua mensagem.
Mesmo os seus discípulos tiveram muita dificuldade em compreender e aceitar
esse ensinamento. Talvez por essa incompreensão, entre nós criamos tantas hierarquias
e classes que geram exploração, preconceito, divisão, privilégios e muitas
mazelas que nos impedem de viver sempre unidos na nossa diversidade e
distinção.
A liturgia deste domingo antes de tudo quer mostrar que Deus Uno-Trino
é bom, fiel, amoroso, justo, misericordioso e perdão. Ele se revela como aquele
que veio mesmo para nos salvar, porque somos seus. Sendo bondade, não há espaço
em Deus para nos maltratar ou condenar. Acolhendo Deus, tal como se revela e se
manifesta a nós, deveríamos corresponder generosamente, sempre, com aquilo que
Ele é, sendo também bons, dóceis, misericordiosos, justos, fiéis, etc.
No Evangelho de hoje o evangelista João, com sua tremenda sensibilidade
escreve que “Deus amor tanto o mundo..., e enviou o seu Filho não para condenar
o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3, 16-17)”. O evangelista
escreve pedindo que façamos um voto de confiança, pois quem acredita se salva.
Neste dia em que celebramos a Santíssima Trindade, reconhecendo que o Pai
que nos criou, que também nos salvou pelo seu Filho Jesus, e nos ampara
caminhando conosco através do seu Santo Espírito, possamos suplicar como
Moisés: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha
conosco...perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade
tua (Ex 34, 9)”. Amém.
Pe. Nicivaldo Evangelista
