Um gesto frequente
nas celebrações litúrgicas, sobretudo por parte de quem preside, é orar de mãos estendidas ou de braços abertos. Recordamos o que escreve
a igmr, 42: “Os gestos e posições
do corpo tanto do sacerdote, do diácono e dos ministros, como do povo devem
contribuir para que toda celebração resplandeça pelo decoro e nobre
simplicidade, se compreenda a verdadeira e plena significação de suas diversas
partes e se favoreça a participação de todos”. E finaliza desejando que “a tudo
possa contribuir antes para o bem comum espiritual do povo de Deus do que
atender ao seu próprio gosto ou arbítrio”.
De fato, na liturgia, os gestos não pertencem a quem
preside; ele tem a grande responsabilidade de favorecer a assembleia a entrar
no mistério celebrado. Por isso,
devem ser gestos profundamente pessoais, mas não facultativos e segundo o
bel-prazer de cada um. Os gestos não pertencem a quem preside, nem expressam
sentimentos pessoais. Eles são como ‘ritualizados’, sinais de um mistério da
Igreja toda.
Um
liturgista muito competente, o padre Aldazábal, escrevia: “O presidente que, de
pé diante da comunidade e diante de Deus, com os braços abertos e as mãos estendidas,
proclama a oração comum, apresenta a oferenda e invoca; o presidente que com a
voz e com os gestos saúda a comunidade reunida, abençoa-a e lhe doa a
Eucaristia é um sinal vivente de Cristo e, ao mesmo tempo, o ponto de união e
comunhão de toda a comunidade celebrante” (In Simboli e gesti, p. 97).
Orar de mãos estendidas e de braços abertos se encontra na tradição
bíblica, onde as mãos expressam o agir humano, são um meio muito significativo
da sua linguagem. Lembremos algumas passagens dos Salmos: Senhor... escuta a voz de minha súplica quando te peço ajuda, quando
elevo as mãos para teu santo templo (Sl 28/27,2); ...no teu nome erguerei as minhas mãos (63/62,5); a ti estendo as minhas mãos, como a terra seca, anseio por ti
(143/142,6). Recordamos, ainda, Moisés que, na batalha contra os amalecitas,
favorecia a vitória do exército hebreu, quando ele ficava com a mão levantada
(cf. Ex 17). O apóstolo Paulo recomenda aos seus cristãos: Quero, pois, que em toda parte, os homens orem, erguendo mãos puras,
sem ira nem contenda (1Tm 2,8).
Escreve o
teólogo Romano Guardini: “O ser humano abre bem as mãos e eleva as palmas
abertas a fim de que a plenitude de sua alma flua livremente e sua alma possa
receber plenamente o que anseia” (O
espírito da liturgia). As mãos estendidas, então, tornam-se o símbolo de um
espírito que se abre para o alto, do nosso ser que tende para Deus. Esse gesto
pode expressar, sem palavras, louvor e agradecimento, súplica, invocação,
disponibilidade, e até angústia.
Na liturgia,
não só o gesto retorna, mas também expressões que recordam Jesus que, na cruz, estendeu os braços na hora de sua paixão (prefácio,
OE II); Antes de estender os braços entre
o céu e a terra, em sinal de perene aliança, Ele quis celebrar a Páscoa com os
seus discípulos (I OE da Reconciliação). Nesse contexto, a oração se torna
intercessão pelos outros. Com diferentes nuances, segundo as culturas, o gesto acompanha
a celebração, enquanto, quem preside levanta seus braços e ergue as mãos, em
atitude de súplica e intercessão ao Senhor, recordando e atualizando o que fez Jesus,
sobretudo na hora de sua doação total.
Dom Armando
