Continuamos a nossa reflexão sobre ‘vasos sagrados’,
considerando o cálice, o vaso mais importante na celebração da Eucaristia. Na
última Ceia, Jesus pegou o cálice, deu
graças, passou-o a eles, e todos beberam. E disse-lhes: ‘Este é o meu sangue da
nova Aliança, que é derramado por muitos’ (Mc 14,23-24, e par.). Sem a
pretensão de analisar o sentido muito profundo dessas palavras, vamos nos deter
apenas sobre a palavra cálice. Não fiquemos procurando de que estilo ou de que material era
feito o cálice que Jesus usou. O que mais importa é o sentido que o cálice tem na linguagem de Jesus.
Um dia, dois discípulos, irmãos entre eles, pedem a Jesus
para sentar um à direita e o outro à esquerda d’Ele no Reino que fundar. Jesus lhes
pergunta: Estão dispostos a beber o cálice que eu vou beber (Mc 10,38 e
par.)? A palavra cálice, na boca de Jesus, refere-se à sua paixão e ao sofrimento que a acompanharia.
Na Bíblia, fala-se, também, de cálice da ira (cf. Is 51, 17.22; Jr 25,15; Sl 60/59,5;
75/74,9; em Ap 16,19: cálice do furor da
sua ira): palavras que podem soar estranhas aos nossos ouvidos, mas que
expressam toda a dor, por parte de Deus, dor de apaixonado pelo seu povo e que
o vê trilhar caminhos errados, e sofre, torna-se ‘vermelho em seu rosto’, como
alguém que está irado. Encontramos, ainda, as palavras: cálice da bênção (cf. Sl 16/15,5): O Senhor é a minha parte da herança e meu cálice, isto é, o
salmista reconhece que o Senhor é o seu tudo, a taça /cálice do qual ‘se tiram as sortes’ (Gonzalo Serrano).
Essas breves lembranças bíblicas nos permitem compreender
como o cálice é metáfora de numerosos
sentidos. Mas, certamente, é o gesto de Jesus o que mais conta, repleto do
sentido do amor com que Ele encheu o cálice
de sua vida. Por isso, é o vaso sagrado
por excelência. E daí decorre os cuidados da IGMR (cf. 328) quando pede que se
usem ‘materiais nobres’ para a sua composição. O cálice, no qual é derramado o
vinho e sobre o qual, quem preside invoca o Espírito Santo e pronuncia as
palavras de Jesus é, portanto, símbolo de todo o sofrimento do Senhor.
Na missa, no momento da apresentação das oferendas, o cálice
é levado ao altar e o sacerdote, coloca o vinho, com algumas gotas de água, e o
apresenta ao Pai dizendo: “Bendito sejais Senhor, Deus do universo pelo vinho
que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano, que agora
vos apresentamos e que para nós vai se tornar vinho da salvação”.
O que mais vale não é o cálice, mas o que nele está contido!
A reforma litúrgica pós-conciliar deu a possibilidade, para que todos, em
algumas celebrações, recebam a comunhão também com a espécie do vinho. Na IGMR
(281) se lê: “Sob esta forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do
banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de
realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação
entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no reino do Pai”. Em
seguida, a IGMR (282-287) dá algumas orientações práticas e define quando é
permitida, deixando às Conferências episcopais a possibilidade de estender essa
possibilidade (cf. 283).
Dom Armando
