Leituras:
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Ester 5, 1b-2; 7-2b-3
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Salmo 44(45)
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Apocalipse 12, 1.5.13a.15.16a
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João 2,1-11
"...e a Mãe de Jesus estava presente"
Entre os personagens próximos de Jesus, poucos como Maria. Dela não se
diz muita coisa nos evangelhos, mas o que se diz é surpreendente. Mãe,
testemunha, seguidora, servidora, presente... Uma mulher fiel a Deus e capaz de
ver mais além do cotidiano e estabelecido; uma mulher capaz de ver diferente.
Onde outros viam uma loucura, Maria viu um horizonte; onde muitos
tinham visto uma transgressão, ela intuiu a promessa de Deus; onde tantos
teriam estremecido diante da proposta de Deus e teriam exigido mais provas,
mais seguranças ou mais garantias, Maria exclamou: “faça-se”. Onde a lei era a
referência e a condenação, ela foi capaz de cantar a grandeza do Deus que está
com os mais simples e quebra as estruturas estabelecidas; onde tudo era
convencional, Maria, com uma acolhida feita de valentia, confiança e entrega,
foi capaz de colaborar com Deus de modo radical; onde todos viam o desenlace
frustrante e triste de uma festa de casamento, ela “viu e antecipou a hora de
seu Filho”... Porque estava sempre presente.
Porque estava presente a Deus, Maria fez-se presente nos momentos
decisivos de seu Filho, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma
presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão
e sensibilidade, próprias de uma mãe.
Sua presença não era presença anônima, mas comprometida; presença
expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar
sua “hora”. Nas bodas de Caná, a novidade está numa nova forma de presença de
Maria, que não se encontra interessada, em princípio, por fazer coisas, por
resolver problemas, senão para traçar uma presença. Ela não está aí para
“arrumar” as coisas, mas para escutar e compartilhar um momento festivo. Ela se
encontra presente, num gesto de solidariedade que transcende e supera toda
atividade.
Trata-se de uma presença que é “música calada” nos lugares cotidianos
e escondidos, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que procedem
desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe
resgatar a solidariedade na vida cotidiana. Uma presença que se manifesta na
ausência de recompensa ou de interesse próprio.
Em definitivo, Maria descobre que é chamada a dar de graça o que de
graça recebeu. Sabe entrar em sintonia com os sentimentos dos outros e
construir vida festiva, e vida em abundância. Sua presença revela um gesto
profético de solidariedade e de anúncio: presença que aponta para uma outra
presença, a de seu Filho. Sua presença dignifica e revela um novo sentido à
presença de Jesus numa festa de Casamento.
A presença silenciosa, original
e mobilizadora de Maria desvela e ativa também em nós uma presença inspiradora,
ou seja, descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas
carências. Tal atitude nos mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias,
outras situações; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a
partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossas pretensões
absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso
redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouvimos penetre na nossa própria
vida; implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas
e títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias que afetam nossas entranhas e permanecem na
memória e no coração.
Disto se trata: aprender dos outros; recarregar nossa própria história
de um horizonte diferente, no qual cabem outras possibilidades e outras
responsabilidades; descobrir uma perspectiva mais ampla que ajuda a formular
melhor o sentido de nossa própria vida.
Evidentemente, nem toda presença é “saída de si”; uma pessoa pode
passar pelos lugares sem que os lugares deixem pegadas; ela pode tocar a
superfície das coisas e das vidas, mas esse contato deixa pouca memória e que
logo desaparece. Com isso não há encontro nem aprendizagem.
Quando a pessoa se faz presença que desemboca no verdadeiro encontro,
ela se expõe, se faz vulnerável, se deixa afetar... Mas essa é a oportunidade
para transformar os olhares e os gestos de quem se atreve a sair dos horizontes
conhecidos.
São muitos os encontros que são fecundos para quem se faz presente e
para quem acolhe esta presença. São muitas as pessoas cujas vidas ganham em
seriedade, em profundidade, em compaixão e em alegria autêntica ao fazer esse
caminho de saída de si. São muitas as pessoas que, em contato com vidas e
histórias diferentes e reais, compreendem melhor suas próprias vidas e sua
responsabilidade.
O seguimento de Jesus nos
mobiliza e nos expande na direção dos outros. “O discípulo-missionário é um
descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado
para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de
centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco). […]
O discípulo missionário não é aquele que, por medo, se distancia do
mundo, mas é aquele que, movido por uma radical paixão, desce ao coração da
realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada
presença do Inefável. “Encontrar, a experimentar Deus em todas as coisas... a
Ele em todas amando e a todas n’Ele” (S. Inácio).
Deus emerge na densidade das coisas, das pessoas e dos acontecimentos.
Quem está em sintonia com esta Presença, vive uma festa permanente.
Pe. Adroaldo Palaoro, sj
