Pr 31,10-13.19-20.30-31
Sl 127,1-2.3.4-5 (R. 1a)
1Ts 5,1-6
Mt 25,14-30
“Felizes os que temem o Senhor e trilham
seus caminhos” (Sl 127, 1).
A liturgia destes últimos domingos do
tempo comum fazem transição para o tempo do Advento. Recordam a espera dos bens
prometidos por Jesus como uma realidade que exige de nós uma preparação
adequada. Desde já, pela vigilância e diligência, caminhamos para a alegria da
presença definitiva do Senhor.
Na parábola das virgens, lida no
domingo passado, o noivo demorava para chegar. Também na parábola dos talentos
o proprietário fica muito tempo fora e volta de surpresa. Para os primeiros
cristãos, que fazem a experiência da “demora da parusia” (a volta de Jesus),
isso significa que devem trabalhar com os bens que receberam de Jesus e não
enterrá-los. Não para “merecer o céu”, mas para assumir a causa do Senhor (com
seu Reino), por amor a Ele. A recompensa deste serviço fiel é Deus mesmo, a
alegria de sua presença.
A primeira leitura, do livro dos Provérbios,
apresenta o louvor da mulher temente a Deus, que encarna na sua vida justa e
dedicada as qualidades da sabedoria. Ela encarna a generosidade e providência
de Deus. Esta mulher dos provérbios e o homem do salmo vivenciam o que Jesus
requer de seus seguidores, um amor zeloso (temor) que se empenha pela causa do
Senhor.
Na segunda leitura, Paulo nos faz
refletir que não a hora, mas o fato é que importa; ou seja, a realidade da
Parusia, da presença de Cristo, deve marcar a nossa vida toda, desde já. Vivamos
na sua presença, à sua luz. Então, o “Dia” não virá sobre nós como um ladrão de
noite; a hora já não tem importância.
No evangelho o acento principal não
está na diversidade dos talentos, dos dons, mas no valor decisivo do serviço
empenhado. A iminência do último dia é descrita muito mais em termos de luz do
que de ameaça. Viver hoje o “Dia do Senhor” é deixar-se iluminar pelo Cristo
que vem para que saibamos que a responsabilidade cristã é consciência do dom
recebido e fidelidade a ele. Ou seja, mais radicalmente, fidelidade ao Dador.
Segundo Ireneu de Lião, o dinheiro
confiado pelo patrão aos seus servos significa o dom da vida concedido por Deus
aos homens. Dom que é também tarefa e que pede para não ser desperdiçado ou
ignorado ou desprezado, mas acolhido com gratidão ativa e responsável.
Poderemos acrescentar que não só aquilo que temos, mas também o que somos é dom
de Deus. Nós somos dom.
Sob esta luz, há um aspecto do juízo
que recai sobre quem não fez frutificar os talentos recebidos e que não tem a
ver acima de tudo com a perspectiva escatológica (cf. Mt 25,30), mas já, aqui e
agora, com o risco de desperdiçar a vida, de não a viver, de a estragar “até
fazer dela algo de estranho e sem graça”. É o risco de uma vida insignificante,
de uma vida não vivida.
O homem da parábola representa Jesus,
os servos somos nós e os talentos são o patrimônio que o Senhor confia a nós.
Qual é o patrimônio? A sua Palavra, a Eucaristia, a fé no Pai celeste, o seu
perdão… em resumo, tantas coisas, os seus bens mais preciosos. Este é o
patrimônio que Ele nos confia. Não somente para ser protegido, mas para
crescer! Enquanto no uso comum o termo “talento” indica uma qualidade
individual – por exemplo talento na música, no esporte, etc., na parábola os
talentos representam os bens dos Senhor, que Ele nos confia para que o façamos
dar frutos. O buraco cavado no terreno pelo “servo mau e preguiçoso” (v. 26)
indica o medo do risco que bloqueia a criatividade e a fecundidade do amor.
Porque o medo dos riscos do amor nos bloqueia. Jesus não nos pede para
conservar a sua graça em um cofre! Jesus não nos pede isso, mas quer que a
usemos em benefício dos outros. Todos os bens que nós recebemos são para dá-los
aos outros, e assim crescem.
Investir o dinheiro recebido significa
expor-se ao risco de perdas que deveriam depois ser reembolsadas ao patrão: o
medo do servo, que o paralisou, é também medo do risco. E, sendo evidente que
esta parábola não pretende ensinar o que fazer do dinheiro e não pode ser usada
para uma apologia de um sistema econômico que absolutize o lucro, o certo é que
o medo de eventuais perdas é entendido como medo da vida, o qual se deve a uma
imagem distorcida de Deus. O desejo de segurança, o medo de empenhar-se, o
temor do juízo dos outros, neutralizaram neste homem a vontade de Deus que era
de que ele procurasse um ganho (cf. Mt 25,27) com o dinheiro recebido: e esse
procurar um ganho também teria significado ele viver, trabalhar, arriscar,
alegrar-se e sofrer, em suma, dar sentido à sua existência.
Cada um de nós tem recebido do Senhor
pelo menos 1 dom que precisa ser usado para o bem comum. Deus confia em nós.
Ele se tornou dependente da honestidade, da lealdade e da fidelidade para com
os bens que Dele recebemos. Deus arrisca nos também devemos nos arriscar por
ele. Nós precisamos trabalhar de forma diligente com os dons recebidos, pois
seremos considerados responsáveis pelo Senhor quando Ele retornar.
E nós, o que fazemos? Quem
‘contagiamos’ com a nossa fé? Quantas pessoas encorajamos com a nossa
esperança? Quanto amor partilhamos com o nosso próximo? São perguntas que nos
farão bem. Qualquer ambiente, mesmo o mais distante e impraticável, pode se
tornar lugar onde fazer frutificar os talentos. Não há situações ou lugares incompatíveis
com a presença e o testemunho cristão. O testemunho que Jesus nos pede não é
fechado, é aberto, depende de nós.
Esta parábola nos exorta a não esconder
a nossa fé e a nossa pertença a Cristo, a não enterrar a Palavra do Evangelho,
mas a fazê-la circular na nossa vida, nas relações, nas situações concretas,
como força que coloca em crise, que purifica, que renova. Assim também o
perdão, que o Senhor nos dá especialmente no Sacramento da Reconciliação: não o
tenhamos fechado em nós mesmos, mas deixemos que desencadeie a sua força, que
faça cair muros que o nosso egoísmo levantou, que nos faça dar o primeiro passo
nas relações bloqueadas, retomar o diálogo onde não há mais comunicação.
Deus confia em nós, Deus tem esperança
em nós! E isto é o mesmo para todos. Não o desiludamos! Não nos deixemos
enganar pelo medo, mas vamos retribuir confiança com confiança! A Virgem Maria
encarna esta atitude no modo mais belo e mais pleno. Ela recebeu e acolheu o
dom mais sublime, Jesus em pessoa, e à sua volta O ofereceu à humanidade com
coração generoso. A ela peçamos para nos ajudar a sermos “servos bons e fiéis”
para participar “da alegria do nosso Senhor”.
Adriano
Bonfim Pereira
4º ano de teologia
