Leituras:
Is 53, 10-11
Salmo32
Hb 4,14-16
Mc 10,35-45
O Evangelho deste Domingo se
encontra logo depois do terceiro anúncio da Paixão por parte de Jesus. Tiago e
João, os filhos de Zebedeu – apelidados de filhos
do trovão (cf. Mc 3,17) pelo caráter impetuoso – demonstram muita
familiaridade com Jesus ao ponto de pedir-lhe de sentar-se um à direita e outro
à esquerda quando estiveres na tua glória!
O que significava isso? Precisamos
voltar no início do Evangelho, quando Jesus proclamava: O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo (Mc 1,15). Vendo
Jesus realizar grandes milagres, caçar demônios, curar todo tipo de doença, os
dois irmãos tinham reconhecido em Jesus o Messias
anunciado pelas Escrituras, mas pensam nele como chefe poderoso que teria
vencido os inimigos – os romanos que dominavam Israel - e reconquistado o reino
de Jerusalém. Eles não tinham compreendido – como os outros dez, os futuros
apóstolos – o que Jesus por três vezes tinha dito: um destino de sofrimento e
morte. Eles tinham em mente sucesso, poder e glória; sim, alguns sacrifícios,
mas para um dia chegar ao poder! Mas... por que tamanha presunção nos dois?
Talvez porque eram parentes de Jesus, ou porque foram escolhidos desde o início
da caminhada, ou, ainda, porque o coração humano é assim mesmo: sedento de
superioridade, de privilégios e de mandar. A resposta de Jesus reafirma sua
escolha e seu estilo de vida, tão diferente e questionador: Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis
beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que
eu vou ser batizado? (v. 38). O cálice do
qual fala Jesus é o cálice da
amargura e do sofrimento que Ele beberá no momento de sua paixão e morte; o batismo deve ser entendido no significado
originário da palavra, isto é, imersão,
ir até o fundo: para Jesus se trata
da fidelidade até o fim, até a morte e morte de cruz (cf. Fil 2). Jesus
pergunta aos dois se estão dispostos a isso, isto é, a enfrentar sofrimento e
morte para realizar esse objetivo. E eles, um pouco superficialmente, respondem
que sim. Um dia eles, de fato, enfrentarão a morte, mas será preciso, ainda,
percorrer muita estrada para compreender e viver o que agora afirmam. Jesus
responde que qualquer decisão última, no que se refere à salvação, depende do
Pai, como para dizer que a glória do Reino de Deus não pode ser vista como um
direito, mas é um dom da bondade e justiça de Deus, sempre fiel às suas
promessas. Nesse momento, eis que os outros apóstolos intervêm, chateados com
os dois tão presunçosos. Então Jesus colhe a ocasião para dar um importante
ensinamento: em sua ‘família’, autoridade e poder não devem ser exercidos como
fazem os chefes das nações e os grandes
que oprimem e tiranizam. Seus
seguidores devem fazer a diferença: entre
vós não deve ser assim; eles devem imitar o Filho do Homem que veio não
para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos
(v. 45). Esse versículo pode ser considerado um dos mais importantes do evangelho
de Marcos, porque, em poucas palavras, resume o sentido da vida e da missão de
Jesus e, também, oferece o modelo para o novo estilo de vida de seus seguidores.
Uma palavra de Jesus é muito significativa: ele afirma que veio dar a vida em resgate para muitos. A palavra resgate lembra uma praxe
jurídica presente no Antigo Testamento: quando alguém se tornava escravo (por
dívidas não pagas ou na guerra), o parente próximo devia providenciar para o resgate. Isso Deus fez com o seu povo
escravo no Egito quando o libertou da escravidão. O que mais devemos observar
não é tanto o ‘preço’ do resgate quanto a atitude de solidariedade. Jesus doa
sua vida não para ‘pagar’ o resgate ao demônio para que deixe de dominar sobre
a humanidade ou para aplacar a ‘ira’ de Deus, mas para manifestar sua total
solidariedade, e carregando sobre si mesmo o pecado, partilhando conosco tudo,
‘exceto o pecado’, (II leitura), morrendo como o grão de trigo (cf. Jo 12,24)
e, assim, produzir muitos frutos e para que, doando sua vida, os humanos
pudessem ter vida em abundância (cf. Jo 10,10). Nesse sentido, a I leitura (Is
53,10-11), fala do Servo sofredor, que carrega
sobre si as culpas do povo e o salva. A carta aos Hebreus (4,14-16: II
leitura) apresenta Jesus qual sumo
sacerdote que se compadeceu de nossas
fraquezas; por isso, precisamos ter fé, e com toda a confiança nos aproximar do trono da graça, para conseguirmos misericórdia. Eis a atitude
profunda do coração em nosso relacionamento com Deus, que deve nos orientar e
sustentar em nossa caminhada cotidiana.
Dom Armando
