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Primeiro Domingo da Quaresma – ano A

As tentações de Jesus e as nossas

Leituras:
    Gn 2,7-9;3,1-7
    Sl 50(51)
    Rm 5,12-19
    Mt 4,1-11

A liturgia deste domingo, para iniciar a quaresma, nos traz como reflexão, o evangelho que fala da tentação sofrida por Jesus, o Filho de Deus. 

Antes de mais nada devemos nos perguntar que significa tentação. Do latim temptatio significa, testar, induzir, influenciar. A tentação é um teste da nossa força, da nossa capacidade de resistência. Na verdade ela mexe nas nossas fraquezas, nos nossos pontos fracos. Ao mesmo tempo que induz, a tentação seduz. Ela nos apresenta um objeto que nos atraia ao qual nos deixamos ser seduzidos. 

A tentação revela, em profundo, a nossa condição humana de fragilidade, de dependência, de medo, de carência, etc. Somos, de um ponto de vista antropológico, vulneráveis às coisas que, à primeira vista, nos proporciona uma realização. Às vezes, cedemos às nossas veleidades com o intuito de atingir aquilo que nos daria uma grande satisfação. E, muitas vezes, nos deixamos levar por isso. 

Jesus de Nazaré, apesar de ser o Cristo Filho de Deus, na sua condição humana também foi tentado antes de realizar o seu ministério na vida pública. O Espírito de Deus o conduz ao retiro espiritual no deserto. Lá porém se confronta com o Diabo que deseja desviá-lo da sua missão, tirar o seu foco e determinação. Ele sofreu as três grandes tentações humanas, antropologicamente, falando; a tentação do prazer (saciar a fome Mt 4,3), do poder (pular da torre sem se machucar Mt 4,6) e do ter (ser dono dos reinos do mundo Mt 4,9). 

O Diabo é o tentador. Ele é considerado também aquele que divide, aquele que engana, o pai da mentira. Obviamente que o Diabo é uma figura sedutora e por isto, seguramente, belo. Suas propostas são encantadoras, perfumadas e doces. Por isso, nem todo mundo tem capacidade e força para resistir à sua sedução. Tudo, porém, que o Diabo propõe é superficial, aparente e não tem sólida consistência. Ceder à tentação, é, por certo, padecer a consequente frustração e desilusão. 

Jesus vai ao deserto da existência humana. O deserto é o lugar da falta, da fraqueza, da necessidade, do sofrimento, da prova de resistência e sobrevivência, da aridez espiritual e física. Lá as nossas fraquezas se evidenciam. Jesus, por ser humano como todo mundo, sofre cada uma delas. O deserto, porém, é o lugar também de oração, de encontro com a própria interioridade, onde se busca a força de Deus para a vida e para resistir às nossas fragilidades e limitações. Jesus reza profundamente no deserto e se prepara para a sua missão. Compreendemos a partir da experiência de Jesus que, mesmo na oração, não ficamos isentos e imunes à presença do Diabo. Apesar disso, sabemos que, como Ele, seremos capazes de vencer as forças diabólicas através da força espiritual da oração.

Jesus nos ensina, através da sua experiência de vida que não precisamos ter medo de nada, nem do diabo e de suas tentações. Alicerçados na oração poderemos ser tentados sim, mas temos uma certeza, porém, que não será o Diabo o vencedor, mas nós, se permanecermos fiéis à oração que nos dá força, coragem e resistência. Cada um de nós procure examinar quais são os nossos pontos fracos, quais as nossas maiores limitações e buscar uma maior vigilância sobre nossos atos e nossa vida de cristãos e cristãs empreendendo uma vida de mais fé e oração para vencer as tentações em nossas vidas. 

Pe. Nicivaldo de Oliveira Evangelista

Quarta-feira de cinzas

Leituras:

    Joel 2,12-18;
    Salmo 51/50;
    2Corintios 5,20-6,2;
    Mateus 6,1-6.16-18


A Igreja nos propõe um tempo ‘forte’ de preparação à Páscoa, a festa maior de nossa fé, memória da morte e ressurreição do Senhor Jesus. É a Quaresma: 40 dias (excluindo os domingos) de mais intensa espiritualidade para retomarmos vigor na caminhada de discípulos de Jesus e para fazermos uma revisão da própria vida.

O povo de Deus da primeira Aliança caminhou por 40 anos pelo deserto; o profeta Elias foi andando por 40 dias deserto adentro; Jesus ficou 40 dias no deserto. A nós, também, é recomendado ‘fazer deserto’ para ver “o que temos no coração” (cf. Dt.8,2). Uma palavra retorna com insistência nestes dias: conversão, isto é, rever a própria vida com suas escolhas e se estamos trilhando caminhos de fidelidade. O Senhor nos pede seguir, com coerência, a sua Boa-Nova, fonte de alegria e vida.
A liturgia da quarta-feira de cinzas é marcada por gestos e palavras que vêm de longe, mas que mantêm sempre um profundo sentido para os cristãos de hoje. O austero rito da imposição das cinzas na cabeça quer recordar “que somos pó e que ao pó voltaremos”. A Igreja nos convida a ‘avaliar os nossos dias’, sem superficiais ilusões. Isso não quer dizer desprezo às belezas e alegrias da vida, mas a urgência de buscar o que a torna mais autêntica e verdadeira. 

Eis, portanto, a necessidade de conversão para saber discernir o que vale mesmo em nossos dias terrenos. O apóstolo Paulo (II leitura) diz que chegou “o tempo favorável, é agora o dia da salvação”; abre-se o caminho para a reconciliação com Deus e de novo relacionamento com os irmãos. Então, cada um(a) veja o que deve mudar em sua vida. Talvez, é aquele hábito errado, aquela relação ambígua, ou a dependência do jogo, do celular, do álcool; o costume de espalhar críticas, a acomodação e a indiferença... Seja este tempo de renovação interior, de mudança íntima e coerente com a fé que professa!

O evangelista Mateus (Evangelho) recorda que não basta cumprir -  para se mostrar - as práticas religiosas de dar esmola, rezar e jejuar. O que mais conta é ‘o coração’, isto é, o motivo interior do agir. Se for para receber elogios humanos, então, você ‘já recebeu a sua recompensa’. Tudo o que fizer, insiste Jesus, seja feito com simplicidade, humildade, e somente o Pai “que vê no segredo” deve saber.

Toda escolha pessoal tem um reflexo social, comunitário. No bem e no mal, nós somos interligados por fios também sociais, culturais, religiosos. A leitura do profeta Joel (I leitura) reflete um tempo de calamidade pública: uma enorme invasão de gafanhotos tinha destruído tudo deixando o povo com fome e no desespero. Por que Deus permitiu isso? O povo toma consciência de que se afastou do projeto de Deus! Esse evento é vivido como chamado a mudar de vida, a ser mais fiéis aos compromissos da Lei. Todo evento não é ‘castigo’ divino, mas mensagem de conversão. 

Nestes dias, penso: o que o coronavirus está dizendo à nossa humanidade? Com certeza, são muitos ensinamentos que podemos receber. Por exemplo, que somos frágeis e que a ciência e seus instrumentos são úteis e importantes, mas limitados. Nossa autossuficiência soberba é arrogante é logo derrubada; o ‘delírio de onipotência’ dos últimos séculos da sociedade ocidental é derrubado.  Tudo o que acontece, ensina Jesus (cf. Lucas 13,1-5) é convite para a conversão, para descobrirmos valores capazes de dar, ontem, hoje e sempre, sentido e sabor aos nossos dias.

Deus continue ‘criando em nós um coração novo” (Salmo)! E sejamos capazes de justiça, solidariedade, acolhida e amor. Entraremos, desse modo, no espírito da Campanha da Fraternidade que, neste ano, fala de vida como “dom e compromisso”. Aumentemos a capacidade de ‘ver, sentir compaixão e cuidar” dos irmãos e irmãs que caminham conosco, sobretudo dos que mais sofrem. Então, a Páscoa será de verdadeira ressurreição, porque: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3,14). 

Dom Armando

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

Leituras:
    Lv 19,1-2.17-18
    Salmo 102(103)
    1Cor 3,16-23
    Mt 5,38-48

O nosso Bom Mestre e Senhor nos apresenta mais um estreito caminho de santidade e humanização no santo evangelho deste sétimo domingo do tempo comum. Esse domingo é o último dessa primeira parte do tempo comum. Já na próxima quarta-feira, daremos início ao tempo da Quaresma, com a celebração e imposição das cinzas.

O convite da primeira leitura e o final do santo evangelho: “Sede Santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” e “sede Perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!” dão o significado dessa celebração e da vida do cristão. Somos todos chamados a sermos, verdadeiramente, a “Imagem e Semelhança do Deus Criador”. Este é, certamente, o ponto alto da fé cristã: sermos imitadores de Cristo, transformar nossa vida, tantas vezes, imersa no pecado e no mundanismo, na vida divina. Quando cada pessoa decide seguir, amorosa e incondicionalmente, a Cristo Jesus, ela entra, naturalmente, em uma lógica que a sabedoria deste mundo não consegue compreender. O caminho do Cristo se dá aos olhos humanos, mas, na maioria das vezes, não o enxergamos. Porém, se prestarmos mais um pouco de atenção, se tivermos coragem, de olhar no mais profundo da humanidade, vamos perceber que a proposta de Jesus, não está na contramão da história. É o próprio ser humano que tantas vezes escolhe caminhar contrário a Deus, verso a Deus. A proposta de Jesus em revogar as máximas dadas aos antigos, nos conduz ao sentido primitivo da lei divina, o amor. Somente vivenciando o amor do Deus Trindade é que nos desapegaremos do “pode ou não pode”, dando assim um passo muito mais desafiador no ser cristão.

A chamada de Jesus vai muito mais além do que um simples cumprir preceitos, ou decorar normas. Ele nos chama a uma religião que se traduza no concreto da vida, no dia-a-dia de toda pessoa. Quando Ele nos diz: "Não enfrenteis... oferece-lhe também a esquerda!... dá-lhe também o manto!... caminha dois com ele!...Amai vossos inimigos..." está nos ensinando a não sermos cristãos de tabelinhas, que segue supostas tradições ao pé da letra, que cumpre preceitos sem os envolver na própria vida. 

A fé cristã, é viva! É a fé do amor! Não pode jamais ser resumida a uma visita a igreja aos domingos. Seguir Jesus Cristo e amá-Lo, pede muito mais a nós. E, por amor, vamos assumindo está dinâmica da verdadeira perfeição. Ser perfeito não é viver sem erros ou cumprir, fielmente, todos os ritos a partir das sagradas rubricas. Ser perfeito é ter a vida Divina como nosso ideal. Querer está sempre mais na companhia do Altíssimo para sermos por Ele moldado, na graça e na perfeição. Devemos todos os dias pedi a Deus esta graça de sermos perfeitos como Ele é! É Ele que “faz o sol nascer sobre os maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos.” Nos dará este presente.

Pe. Gonçalo Aranha dos Santos

5º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Leituras:
    Is 58,7-10
    Sl 111(112)
    1Cor 2,1-5
    Mt 5,13-16

Neste domingo, a Liturgia da Palavra nos traz uma mensagem de incentivo e motivação a respeito da nossa atuação na sociedade como leigos batizados.

No evangelho, ouvimos uma parte do Sermão da Montanha no qual Jesus compara os seus ouvintes a “sal da terra” e “luz do mundo”. Jesus destaca que sal e luz têm uma função a cumprir. Se deixam de fazer aquilo que lhe é inerente tornam-se supérfluos, insignificantes. A luz que não ilumina, o sal que não dá sabor, não tem sentido de ser. Assim, Cristo quer chamar a nossa atenção para as atitudes e valores que somos chamados a propagar como cristãos. Se somos batizados mas não vivemos de maneira justa e solidária tornamo-nos como o sal insosso ou a luz debaixo da vasilha. Por isso, Jesus motiva seus discípulos a dar testemunho da fé com amor e coragem.

Se no evangelho temos o convite a uma postura de fé e testemunho, a profecia de Isaías nos apresenta um resumo de boas atitudes: “reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares o nu, cobre-o” (Is 58,7) e continua convidando a destruir os instrumentos de opressão, deixar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, acolher de coração aberto o indigente e prestar socorro ao necessitado (Is 58,9-10). Essa lista pode ser ampliada e atualizada. Contudo, o profeta nos proporciona entender que são essas atitudes concretas que agradam a Deus e que vivendo-as somos, por Ele, libertados das trevas.

São Paulo, por sua vez, na Primeira Carta aos Coríntios, nos dá um exemplo de audácia e coragem. Ele conta como realizou sua missão naquela comunidade sem se apoiar na sabedoria humana, mas somente no Espírito e na força da mensagem do Cristo Crucificado. Essa experiência de Paulo nos faz lembrar da necessária coragem e determinação que precisamos ter para viver a fé e realizar a missão. Nem sempre é fácil ou cômodo adotar as atitudes propostas no evangelho. Ser sal e luz muitas vezes não é vantajoso aos olhos deste mundo. O cristão precisa ter essa mesma audácia de Paulo para viver a sua identidade cristã, dando testemunho dos valores do evangelho na realidade atual.  

Desse modo, somos convidados a tomar consciência da necessária coerência entre fé e vida que o Evangelho nos apresenta. Precisamos ser “sal da terra” e “luz do mundo”, ou seja, fazer a diferença na realidade atual concretizando em nossos trabalhos e relacionamentos os valores do Evangelho. Por isso, nos apoiemos na graça de Deus, pedindo-lhe que nos fortaleça sempre mais diante desta exigente missão de testemunhar a fé. 

Pe. Jandir Silva

2º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Leituras:
    Is 49, 3.5-6
    Sl 39 (40)
    1Cor 1,1-3
    Jo 1,29-34

Em meio às incertezas da vida, ao anseio de respostas rápidas e concretas, podemos nos deixar iludir por promessas de segurança, ao ponto de substituir nossa fé no verdadeiro Redentor: Jesus.  A partir do materialismo prático, que procura de um cristianismo muito suave, sem mandamentos nem sacrifício. Há uma falsa esperança de que os avanços da humanidade acabarão por resolver todos os problemas humanos, pois os avanços que a ciência traz impulsionam uma vida mais fácil, mas traz a ilusão que todas as outras dimensões da vida podem ser facilitadas por ferramentas simples e receitas certeiras. Quanto a fé, essa tendência é uma ilusão. São outros tantos “redentores” atrás dos quais as pessoas correm.

A liturgia de hoje não trata diretamente das ilusões, mas ao apontar o Cristo como o verdadeiro Redentor, fiel a vontade do Pai e feliz por praticá-la (Cf. Sl 39(40)), nos faz entender que qualquer esperança, se desligada de Cristo, pode nos afastar Dele.

A primeira leitura descreve características que só se aplicam plenamente a Jesus. Ele é o guia seguro e o ponto de unidade do povo cristão, e atrai para si os que estão fora. Desta certeza brota nosso compromisso de, em primeiro lugar, contribuirmos sempre para a unidade. Esta só se mantém quando Cristo está no centro e acima de qualquer coisa. Toda divisão é gerada no orgulho e em convicções mais políticas que religiosas. Nestas situações, Cristo não está mais no centro, outras esperanças se colocam entre nós e Ele. O segundo compromisso é cooperar para que a força de atração de Cristo se irradie para o mundo por práticas inclusivas. Quando alguém é deixado de fora, é Cristo que é excluído.

A segunda leitura, nos aponta uma santidade originada em Cristo. Paulo se dirige “aos que foram santificados em Cristo”. Podemos dizer que esta santidade se dá a partir da adesão a Cristo pela fé e é confirmada pelo batismo.  Sobre os santificados em Cristo, Paulo também diz que estes são “chamados à santidade”; isto quer dizer que a santificação por Cristo não é mágica. Ela se expressa verdadeiramente na nossa vida de batizados quando atendemos a este chamado de sermos santos, isto é, mais configurados a Cristo, mais próximos e comprometidos com Ele e com os irmãos. De maneira mais específica, os compromissos de unidade e inclusão, acenados pela aproximação da primeira leitura com nossa vida de fé, também colaboram a esta santidade de vida. 

Por fim, o evangelho consagra os ensinamentos das leituras e salmo. João é testemunha da Luz, a Luz das Nações. Ele mesmo nos aponta que Cristo é essa Luz, pois tem a plenitude do Espírito Santo. Por isso, é Aquele que vem fazer a vontade de Deus. Igualmente, nós somos chamados, a exemplo de João, a sermos testemunhas dessa luz maravilhosa: Jesus. Dele nos vêm a paz e reconciliação, na unidade e na inclusão, quando na generosidade perdoamos e aceitamos ser perdoados. Na oração da coleta deste domingo pedimos a Deus que “escute misericordiosamente nossas orações e nos conceda a paz”, talvez, por isso a oração pós comunhão pede “o espírito de caridade”, para que vivamos “unidos num só coração e numa só alma”. Pelo amor concreto estaremos unidos a Jesus, verdadeira esperança, e uns aos outros e, assim, teremos a paz que só o pão do céu nos traz. 

Pe. Adriano Bonfim
Paróquia Senhor do Bonfim de Boninal

FESTA DO BATISMO DO SENHOR

Leituras 
 
    Isaías 42,1-4.6-7
    Salmo 28(29)
    Atos dos Apóstolos 10,34-38
    Mateus 3,13-17

No segundo domingo de 2020, temos a alegria de celebrar a festa do Batismo do Senhor. Com esta celebração encerramos o tempo litúrgico do Natal. No dia seguinte começaremos a primeira parte do Tempo Comum.

Esta festa litúrgica nos faz naturalmente contemplar a solidariedade e o amor de Deus para com a humanidade. Ele entra na fila dos pecadores, sem ser pecador e confessa os pecados, mesmo sem os ter. “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus”, ensinou-nos São Paulo (2Cor 5,21) e na prece Eucaristia IV, escutamos do sacerdote a oração, dizendo que Cristo “viveu em tudo a condição humana, menos o pecado”, estes textos bíblico e litúrgico fazem transparecer no mais alto grau o sentido da festa do Batismo do Senhor. Por amor a nós, ele se faz batizar por São João Batista; por amor a nós Ele nos dá o verdadeiro exemplo de que também, precisamos ‘entrar na fila’ para receber e viver o Santo Batismo. Pois, por meio deste sacramento nos tornamos “justiça de Deus”. Cristo nos justifica diante do Pai, com o seu gesto de humildade - deixando-se ser batizado por São João Batista – e nos configura a Ele, pois assim como Ele é o Filho amado, no qual o Pai pois todo o seu agrado (evangelho), nele cada batizado se torna um filho muito amado, que recebe todo o agrado divino.

Sobre o Santo Sacramento do Batismo o catecismo da Igreja ensina que Ele é “necessário para a Salvação, daqueles aos quais o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir este sacramento”. Ainda nos recorda “os dois efeitos principais são, pois, a purificação dos pecados e o novo nascimento no Espírito Santo” (1262).

Nesta celebração, todo cristão é chamado a recordar do seu próprio batismo, no Batismo de Cristo, no qual se ouviu a voz do Pai e se contemplou a descida do Espírito Santo. Como é bonito um cristão que sabe a data do seu batismo, que recorda cheio de gratidão dos seus pais e padrinhos que movidos pela fé, pediram e buscaram na Santa Igreja este sacramento. Como é belo os pais que buscaram para seu filho e afilhado nos primeiros dias ou meses do seu nascimento esta graça batismal. Este testemunho dos que pedem o sacramento do batismo para as crianças torna-se ainda mais belo, quando a motivação nasce da fé cristã e da participação na vida da comunidade. São poucos os pais que numa participação ativa e consciente, recorrem a fonte batismal, para dar o quanto antes a vida nova que o Santo Batismo dá! Mas, apesar de sabermos que esta consciência ainda não está na maioria dos pais, os ministros deste sacramento, os catequistas e agentes de pastoral não devemos desanimar. Algumas ações negativas e até escandalosas de como o Santo Sacramento é administrado, não devem desmotivar os que buscam uma maior formação, conscientização e vivência da fé, numa maior preparação na celebração e vivência sacramental.

Nesta festa recordamos agradecidos do Projeto Pastoral de nossa Diocese “A Iniciação Cristã e seus sacramentos – 2010 a 2014”. Esta é uma ocasião propícia para, à luz desta celebração, retomarmos a Carta Pastoral “Banhados em Cristo somos novas criaturas” a nós entregue por Dom Armando e, mergulhados na Santíssima Trindade, redescobrirmos o sentido do batismo, assumindo com maior vigor a nossa missão de batizados e enviados. 

“Assim como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” (II leitura), cada um de nós batizados também o fomos, por isso devemos nos deixar ser orientados e conduzidos por este mesmo Espírito. Sendo-lhe dóceis e obedientes para fazermos tudo o que Ele nos mandar. Que Deus nos dê a “graça de ouvir fielmente o seu Filho amado, para que, chamados filhos de Deus, nós o sejamos de fato”. Amém! (Oração Pos comunio).

Pe. Gonçalo Aranha

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

I leitura – Nm 6,22-27: Invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei;
Salmo 66/67, 2-3.56.8: Que Deus nos dê a sua graça e a sua bênção;
II leitura – Gl 4,4-7: Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher;
Evangelho – Lc 2,16-21: Encontraram Maria e José e o recém-nascido. E, oito dias depois, deram-lhe o nome de Jesus.

Hoje celebramos a solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria. Celebramos também o dia mundial da Paz e o Papa Francisco propôs o tema: “A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica”; e iniciamos um novo ano civil: 2020 depois de Cristo.

1. A Palavra que escutamos nos apresenta (Evangelho) os pastores visitando Jesus; eles, por primeiros, encontram o recém-nascido com Maria e José. Pobres encontram o Pobre que vem para enriquecer a todos. Mas, para acolher os seus dons, é preciso ter consciência da própria pobreza, ser capazes de dar alegria e “glorificar e louvar a Deus por tudo”. O evangelista Lucas recorda que Maria e José cumprem com as obrigações da Lei, e Jesus recebe a circuncisão, sinal de pertença ao povo eleito, e da aliança que Israel vive com o seu Deus. Ao filho, os pais dão o nome Jesus; significa “Deus salva” ou “Deus é salvação”. O anjo tinha dito que o menino que ia nascer “Salvará o seu povo de seus pecados”. 

2. Com a presença de Jesus, o Filho de Deus que vem morar em nossa terra, é-nos dado um sinal da bondade de Deus para com a humanidade. Quem tiver mente e coração abertos para compreender e acolher o imenso dom de Deus à humanidade, recebe uma proposta de vida repleta de sentido, de salvação, de esperança. 

3. Contemplemos hoje Maria, a Mãe. A liturgia a proclama de Mãe de Deus, “pois ela trouxe o autor da vida”, reza a oração do dia; “quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher”, diz o apóstolo Paulo (II leitura). No Filho amado, nós todos nos tornamos filhos, e “tudo isso por graça de Deus”, conclui o apóstolo.

4. Em sua mensagem para o dia mundial da paz, o Papa escreve: “A paz é um bem precioso, objeto da nossa esperança; por ela aspira toda humanidade. Depor esperança na paz é um comportamento humano que alberga uma tal tensão existencial, que o momento presente, às vezes até custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho”. (...) “Sabemos que a guerra, muitas vezes, começa pelo fato de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio” Nasce no coração do homem, a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo” (...). Em conclusão, o Papa orienta: “Devemos procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua. O desejo da paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos” (...) “O mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesões da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações... A paz é uma construção que ‘deve estar constantemente a ser edificada’, um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter sempre a palavra dada e a respeitar o direito. Na escuta mútua, podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto de um irmão”. 

5.    Ao seu povo, no início do novo ano, o Senhor dá a sua bênção: (I leitura): “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti!”. Como o sacerdote da primeira aliança, eu também desejo a cada um/a, e a toda a comunidade e à Cidade um novo ano de paz. Deus nos dá sempre a ‘sua’ paz, diferente da paz do mundo. Saibamos acolher este grande dom; seu nome é Jesus, Ele é o ‘Príncipe da paz”. Que Ele entre em nossas vidas e as transforme, em nossos corações e os ilumine, em nossas relações e as torne mais transparentes, verdadeiras e repletas do seu Espírito de amor.

Dom Armando Bucciol
Bispo Diocesano

NATAL 2019


LEITURAS:
Isaías 62, 11-12
Salmos 96, 1 & 6. 11-12
Tito 3, 4-7
Lucas 2, 15-20
1.   “Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura... E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados” (Evangelho). Com estas simples palavras, o evangelista Lucas descreve o encontro de humildes e desprezados pastores com a família de Nazaré. A eles o anjo tinha dito: “Hoje ... nasceu para vós o Salvador que é o Cristo Senhor!”. Reconhecer neste menino o Messias de Deus e o Salvador é possível só pela fé. Ele não é uma criança qualquer; sua identidade, ainda, fica escondida numa total simplicidade. Para compreender quem é este Cristo vai precisar uma longa caminhada pelas estradas empoeiradas da Palestina até o Calvário.
O sentido verdadeiro do Natal se compreende somente com olhos transparentes e mente pura. Entra no mistério do estilo de Deus só quem ‘se tornar como criança’, diz Jesus. “Entrar no Reino” significa dar sentido à vida tendo compromisso com uma humanidade humilde e simples, justa e fraterna. Exige-se considerar os outros não como inimigos ou concorrentes, mas quais irmãs e irmãos, estreitando com eles laços de humanidade e de solidariedade.
Hoje se torna difícil entender o sentido do Natal. É muita poluição que nos envolve; propagandas e redes sociais propõem mensagens e estilos de vida apontando outros ‘salvadores’, mais eficientes e imediatos, mais poderosos e chamativos. O menino Jesus não compete com eles, mas Ele sabe que esses poderosos têm pés de barro e não têm capacidade de dar salvação.
2. O apóstolo Paulo escreve ao discípulo Tito (II leitura): “Caríssimo, manifestou-se a bondade de Deus nosso Salvador, e o seu amor pelos homens: Ele salvou-nos... por sua misericórdia”. Acolher Jesus e sua presença, deixar que a divina misericórdia nos envolva e transforme é a maneira mais bela de celebrar e viver o Natal. Trata-se de ‘fazer silêncio’ e escutar a Voz; ‘fazer espaço’ em nosso interior, para acolher o Hóspede; ‘prestar atenção’ para entrar em sintonia com Aquele que bate à porta de nossa vida, pode ser de maneira disfarçada e inesperada.
Nós cristãos devemos reafirmar que o Natal é Jesus, o Filho de Deus, que se faz humano! Nada mais e nada menos! Muitas mensagens que recebo, também de irmãos na fé, fazem circular a ideia de um Natal sem Jesus. Sim, sentimentos bonitos, desejos de intensa e íntima alegria, votos das ‘coisas’ melhores. Mas, para isso, não precisa incomodar Jesus.
Natal é o mais sublime Dom que Deus fez e faz à humanidade. Sua Palavra eterna e definitiva ‘veio morar entre nós” (João 1,14), e quem a acolhe se torna ‘filho de Deus’. O que os humanos almejavam e nem podíamos imaginar, agora, torna-se realidade pela iniciativa amorosa do nosso Deus e Senhor.
Desejo que ao menos alguns dos que pretendem seguir Jesus possam, neste novo Natal, ser tocados e compreendam esta mensagem e “manifestem em ações o que brilha pela fé em suas mentes” (Oração do dia de Natal). Torne o Natal a ser de Jesus, festa de uma vinda que aconteceu enquanto esperamos sua ‘vinda gloriosa’: a esta devemos olhar, na espera e na esperança. A ‘recordação’ da liturgia visa manter viva a esperança de vida em plenitude.
Neste dia santo, convido para que olhem para a Mãe de Jesus. O santo bispo de Alexandria, Cirilo, no Concílio de Éfeso (431) em que Maria foi proclamada "Mãe de Deus” pronunciou a mais bela pregação da antiguidade sobre Maria: “Salve, ó Maria, Mãe de Deus, tesouro venerando do mundo inteiro, lucerna que nunca vai se apagar, fúlgida coroa da virgindade, templo indestrutível, mãe e virgem ao mesmo tempo; de Ti, de fato, nasceu Aquele do qual o Evangelho diz: ‘Bendito aquele que vem no nome do Senhor’”.
Queridas irmãs e amados irmãs, este Natal seja repleto da presença de Jesus em sua vida e que o Natal aconteça a todo dia em sua vida.
Dom Armando

26° Domingo do Tempo Comum - Ano C

LEITURAS:

      Am 6, 1a.4-7
      Sl 145;
      1Tm 6,11-16
      Lc 16, 19-31

“Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida” (Rerum Novarum, 2).

Ao celebrarmos o 26° Domingo do tempo comum, nos deparamos com duas realidades humanas: vida e morte. Nesse sentido, as leituras nos apontam três características fundamentais para compreendermos melhor tais realidades, bem como a proposta salvífica de Deus para o homem. A dignidade humana, a saída da zona de conforto e a responsabilidade ética envolvem toda a mística celebrativa desta liturgia.

O primeiro aspecto a ser levado em consideração é quanto a posição que o autor sagrado coloca Lázaro. Nos relata o evangelista: “um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico” (Lc 16, 20). Eis que estamos diante de um homem chagado, que perdera toda sua dignidade e não encontra ninguém que o ampare. Esse personagem é o protótipo de uma imensidão de pessoas que vivem marginalizados nas periferias físicas e existenciais da nossa sociedade. É essa realidade de morte que precisamos enfrentar como Igreja para devolver a esses homens e mulheres a dignidade e tirá-los do “chão”.

Em um segundo momento, o profeta Amós exorta o povo que saia de sua “zona de conforto” e se sensibilize com o perigo iminente que o ronda. Quantas lições podemos aprender com esse texto! Uma delas é que “o mundo não gira em torno de nós”, e como diz Shakespeare: “Depois de algum tempo você... aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências”. Nessa perspectiva, surgem algumas perguntas: o que é necessário fazermos para sermos heróis anônimos? Quais as consequências que devemos enfrentar para construirmos um mundo melhor? Certamente o primeiro passo é sairmos da comodidade que nos aprisiona. 

Todo o supracitado desemboca no compromisso ético. A admoestação que Paulo faz a Timóteo no início da leitura lança luzes para a nossa realidade, ou seja, ser afável diante de tanta perversidade, justo perante as inúmeras injustiças que nos permeiam, piedoso frente às crueldades que presenciamos, fiel contrapondo a cultura da infidelidade, amar numa sociedade que ensina a odiar o diferente, enfim, o Evangelho nos orienta para a contramão dos desvalores e da cultura de morte e nos remete a um cenário de vida e comunhão. 

Pablo Barbosa do Prado
3° ano de Teologia

18° Domingo do Tempo Comum – Ano C

Leituras:


Ecl 1, 2; 2, 21-23
Sl 89
Cl 3,1-5.9-11
Lc 12, 13-21

Um dos temas centrais da liturgia deste 18° Domingo do tempo comum é o desapego. Desapegar significa, acima de tudo, ser autônomo diante das coisas e das pessoas, significa, também, ser coerente diante das escolhas feitas durante o limite espaço-temporal da vida. Porém, o processo de desvencilhar-se da escravidão do apego não é fácil e requer um constante exercício. Nesta dinâmica processual, podemos observar três tipos de desapego que, à luz da Palavra de Deus, somos orientados a exercitar.

O Evangelho de hoje nos coloca diante de duas “riquezas” distintas, aquela produzida pelo acúmulo de bens, e uma outra que é expressa como “riqueza diante de Deus”. Aqui é nítido o primeiro ato de desprendimento do homem, ou seja, o desapego das coisas. Com essas palavras Jesus chama a atenção para a importância de sermos possuidores das coisas, ao invés delas nos possuírem.

Os sábios de Israel já alertavam sobre o perigo do apego. O livro de Qohelt, do qual ouvimos a primeira leitura nos apresenta, de modo poético, um segundo tipo de apego, bem mais sutil e perigoso que o primeiro, que é o apego às pessoas. Desapegar das pessoas não significa uma atitude de autossuficiência, ou um egoísmo individualista que descarte a necessidade do outro. Pelo contrário, este desapego se refere às relações tóxicas que muitas vezes insistimos em manter desconsiderando o efeito nocivo ao outro e a nós mesmos.

Por fim, iluminados pelo texto paulino, nos deparamos com o mais sublime dos desapegos: o de si mesmo. Despojar de si significa fazer a experiência concreta de encontro com Cristo. Só é possível “alcançar as coisas do alto” com os pés firmes na realidade em que vivemos, nos doando inteiramente à missão a nós confiada. Eis o verdadeiro sentido do despojamento de si, converter todas as nossas forças para que o amor supere o ódio, a esperança supere o desespero e, mesmo em meio às dores, a alegria seja o combustível que impulsione os nossos corações para fazermos a experiência de encontro com Cristo e permitirmos que as outras pessoas também experimentem este encontro.

As três formas de desprendimento, acima citadas, nos mostram que quanto mais nos distanciamos das coisas fugazes mais nos aproximamos dos bens eternos e nos tornamos ricos diante de Deus. Que a liturgia hoje celebrada permita que saiamos da superficialidade da relação com as coisas, as pessoas, e nós mesmos e entremos na profundidade das mesmas dimensões relacionais que, vividas coerentemente, nos aproximam do mistério salvífico de Deus.

 
Pablo Barbosa do Prado
3° ano de Teologia

SOLENIDADE DE PENTECOSTES


LEITURAS:
NA VIGÍLIA: Gn 11,1-9; Sl 103/104; Rm 8,22-27; Jo 7, 37-39
NO DOMINGO: At 2,1-11; Sl 103/104; 1Cor 12,3b-7.12-13; (ou Rm 8,8-170; Jo 20,19-23; ou Jo 14, 15-16.23b-26
Pentecostes, a festa dos “cinquenta dias”, recordava ao povo de Israel o dom da Lei. Depois da fuga do Egito, quando os escravos liberto chegam ao monte Sinai, o Senhor Deus realiza a Aliança e eles se tornam “Povo de Deus”. Neste dia, acontece o que os Atos dos Apóstolos relatam: o Espírito Santo desce sobre o grupo dos primeiros seguidores de Jesus (I leitura do dia). Estavam ‘no mesmo lugar’, mas de portas fechadas ‘por medo’, reunidos na espera que se cumprisse a Promessa de Jesus.
As nove horas algo inesperado acontece: barulho como de forte ventania, línguas como de fogo, espanto e admiração, alegria e coragem, e falam novas línguas que todos compreendem. O Espírito, o mestre interior, está ensinando a nova língua: é a língua(gem) do amor. A ‘confusão’ de Babel (I leitura da vigília) é superada pelo Espírito que derruba toda divisão e incompreensão.
Nasce a Igreja, “um só corpo, um único Espírito”, todos reunidos em Cristo; todas as diferenças são vencidas: “há diversidade de dons, mas um mesmo Espírito” (II leitura do dia). O que mais distingue os discípulos de Jesus é a comunhão, todos filhos do único Deus e Pai. “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus”. A família humana compreende sua identidade e missão; não mais conflitos e divisões, mas união, paz, harmonia, igualdade, fraternidade, diálogo, perdão, amor. Essa é a nova ‘linguagem’ fruto da novidade trazida por Jesus, o Filho no qual todos nos tornamos filhos, unidos pela força transformadora do Espírito, irmãos no Irmão Jesus.
A vinda do Espírito, revela plenamente e realiza o projeto de Jesus. A vida se mostra como questão de amor! Não de qualquer amor, mas do amor ‘ágape’, aquele amor que vem do Deus Amor, que sabe dar a vida pelo outro, que não se deixa dominar pelas paixões desordenadas, pelo egoísmo o orgulho, a competição e a concorrência, mas que vence o mal com o bem e constrói paz, na justiça e fidelidade.
O Espírito do Ressuscitado, doado à sua Igreja desde o dia da Páscoa, agora pega asas e conduz a Igreja, para que a Bela – Notícia se expanda e alcance o mundo inteiro. As testemunhas, fortalecidas pelo dom do Espírito, terão força necessária para a missão. Devem levar a todos paz e perdão: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio... Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados” (Evangelho do dia). Nisso consiste a missão, entregue à Igreja toda, a cada um(a).
Hoje é o dia para renovarmos a disponibilidade, para acolhermos o dom e sermos suas testemunhas, missionários de paz e perdão. Por isso, com o salmista cantemos de alegria “Bendize, ó minha alma, ao Senhor”... “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Salmo).
Dom Armando

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR


Leituras:
At 1,1-11;
Sl 47;
Ef 1,17-23;
Lc 24,46-53
      Os frutos da Páscoa continuam sendo celebrados pela Igreja. Neste Domingo, de maneira especial, o mistério da Ascensão do Senhor demonstra que o caminho aberto e percorrido por Jesus é o mesmo que somos chamados a trilhar. O Senhor foi preparar para nós um lugar no céu. Somos esperados por quem já chegou.
         Ainda assim, apesar de partir, Jesus não deixa de estar presente. O que acontece é que Sua presença visível dá lugar a presença por meio do Espirito Santo. Este se manifesta especialmente na palavra anunciada, na Igreja reunida em oração, nos sacramentos realizados por esta e também no interior de cada pessoa que acolhe o dom da fé.
         Considerando todos estes modos de manifestação de Jesus, é importante dizer: a presença de Jesus se manifestará sempre na sua Igreja e por sua Igreja. Enquanto proclamarmos o projeto salvador de Deus que se manifesta em Jesus, temos a convicção de que Ele estará presente em nosso meio. Indo além, podemos dizer, que cada cristão, associado a Cristo desde seu batismo, é chamado a ser presença d'Ele no mundo.
         A Ascensão, significa ainda que Jesus está: “acima de toda e qualquer outra dignidade que possa existir neste mundo ou no mundo que há de vir” (Ef 1, 21). Ele é o único que pode nos governar e julgar, mas também nos defender, pois leva até o céu a nossa condição humana assumida de uma vez por todas na sua encarnação. Por isso na carta aos Hebreus encontramos: “Cristo entrou no próprio céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor!” (9,24).
         Este caminho de Jesus que culmina na Ascensão, só aconteceu por nossa causa. Jesus já tinha tudo isso antes de vir ao mundo, mas Ele vem para que também nós tivéssemos acesso a mesma alegria. Que graça imensa, quanta alegria receber tamanho amor.
         Pensar neste mistério, me faz lembrar da nossa realidade. É constante na nossa vida do interior ver pessoas buscar melhores condições de vida nos grandes centros.  Certamente nós já vimos ou ouvimos falar de alguma situação em que numa dessas tentativas o mais corajoso, mais vivido ou mais instruído da família vai a frente, depois volta e busca os demais da família. Este exemplo pode ser comparado ao que Jesus faz neste Domingo, Ele vai a nossa frente, pois sozinhos não conseguiremos chegar (aonde ele está), Ele vem e nos busca, através do Espírito Santo.
Sozinhos não somos capazes, mas Jesus, pelo Espírito Santo, nos fortalece e nos ajuda a caminhar, um pouco por vez, até alcançarmos o lugar que Ele nos prepara.
         Entre o ponto que estamos e o que precisamos chegar, Jesus nos pede algo importante e nos concretiza com essa certeza: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc24, 48), testemunhas do caminho percorrido por Ele para a nossa salvação. Que ao testemunhar tamanho amor, possamos convidar outras pessoas a entrarem nesta mesma estrada de entrega, doação e amor gratuito, pois só unidos a Cristo, na força do Espírito Santo, poderemos caminhar e chegar uma dia a plenitude de sua presença, razão de nossa alegria.
    Pe. Adriano Bonfin Pereira

4º Domingo da Páscoa - Ano C

Leituras:

At 13, 14. 43-52
Salmo 99
Ap 7, 9. 14b-17
Jo 10, 27-30

Vivendo as alegrias pascais, a Igreja nos orienta, por meio da liturgia deste quarto domingo, acerca do caminho do discipulado. Diante do evangelho que acabamos de ouvir, podemos nos ater aos três primeiros verbos para traçarmos linhas que norteiem a nossa missão de autênticos discípulos missionários de Cristo. 

Primeiramente, a atitude da escuta é imprescindível para que o coração do discípulo seja tocado pela Palavra do Senhor. “As minhas ovelhas escutam a minha voz...”, diz o Mestre. Certamente a atenção dada à Palavra impulsionou Paulo e Barnabé a anunciarem a boa notícia de Jesus. De modo semelhante, aqueles que os ouviam também se sentiram penetrados pelo ensinamento dos apóstolos. No entanto, a acolhida desta Palavra é fundamental para que ela transforme verdadeiramente o coração daqueles que a ouve. Nesse sentido, o escritor sagrado relata que esse acolhimento não ocorreu com aqueles que conservavam a inveja em seu íntimo. Ora, em nossa caminhada de fé precisamos tomar cuidado para não deixarmos que a inveja impeça que Jesus aja em nossas vidas.

Num segundo momento, nos deparamos com o termo “conhecer”. A afirmação de Jesus no relato bíblico é verídica. Verdadeiramente Ele nos conhece! Porém, em se tratando do nosso conhecimento acerca de Jesus a recíproca é verdadeira? Acaso conhecemos verdadeiramente nosso salvador? É preciso entender que conhecer o Bom Pastor não significa “conhecimento acadêmico”, que adquirimos na escola. Essa atitude vai além de mera teoria. Conhecer Jesus Cristo exige de nós mais que um esforço intelectual, demanda um exercício espiritual. O conhecimento verdadeiro do Filho de Deus se dá quando o ser humano é capaz de pôr em prática aquilo que celebra. Somente quando a oração tem ressonância na vida, e vice versa, é que o verdadeiro conhecimento do Mestre acontece. 

Por último vemos o tema do seguimento. Seguir significa assumir tudo aquilo que a caminhada propõe. É enfrentando as labutas diárias, superando as dores, celebrando as conquistas e alegrias, vivendo o quotidiano como um grande presente de Deus, que nos colocamos a caminho com o Senhor. O itinerário é exigente. Muitas vezes as fadigas minguam as forças. Contudo, a certeza de que temos um Pastor que, caminhando conosco, nos conduz às fontes da água da vida, e ao mesmo tempo, um Deus que enxugará nossas lágrimas (Cf Ap 7, 17) nos dá novo vigor para continuarmos o percurso. Que o mesmo Deus da vida nos permita, sempre mais, escutar, conhecer e seguir aquele que nestes dias celebramos sua vitória sobre o pecado e a morte, Jesus Cristo. Amém.

Pablo Barbosa do Prado
3° ano - teologia

2º Domingo da Páscoa


LEITURAS:
At 5,12-16
Sl 117
Ap 1,9-11a.12-13.17-19
Jo 20,19-31
“Creio Senhor, mas aumentai nossa fé”. 

A liturgia do 2º Domingo do Tempo Pascal nos insere na realidade do Ressuscitado que destrói a morte e nos garante a vida eterna que é dada por meio da fé. É na comunidade que somos chamados a reconhecer o Cristo que é o centro da vida Cristã; é no encontro com o ressuscitado que a comunidade se estrutura e é d´Ele que provém a vida que na paz se amima e permite enfrentar as dificuldades e as perseguições. A missão que Cristo nos confere, e que os apóstolos realizam é a missão salvadora e libertadora; e quando a realizamos, está dá testemunho do Cristo vivo que se faz presente no meio da comunidade.  
Ao anoitecer, em meio as portas fechadas, com o clima de medo, Jesus aparece com uma mensagem, um convite, a paz. Ele diz: “A paz esteja convosco”. A paz garante que Jesus venceu a morte, não existe mais o medo, agora a comunidade pode se alegrar, é Ele, com os sinais da morte, “mostrou-lhes a mãos e os lados”, sua identidade, é Jesus, são os sinais do seu amor e da sua entrega que fazem os discípulos os reconhecerem e alegrar por estarem na presença do Senhor.
O envio missionário do ressuscitado, “como o Pai me enviou, também eu vos envio”, é a continuidade do seu projeto de amor, Jesus nos garante a força do seu Espirito, “soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo”, pois só por meio do Espírito de Jesus podemos realizar a missão como os apóstolos realizaram, “muitos sinais e maravilhas eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos”. Os apóstolos são testemunhas de Jesus ressuscitado e do seu projeto libertador para o mundo, os gestos realizados (1ª Leitura), servem para dar testemunho da ressureição, da vida nova que em Cristo começou, e que através de seus seguidores, pelo próprio mandato de Cristo, deve chegar a todos os homens.
O testemunho requer um elemento essencial na vida do cristão, a fé, os discípulos só dão testemunho do ressuscitado porque o veem. “Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: Vimos o Senhor!” O crer no ressuscitado acontece dentro da comunidade reunida, que é o lugar onde irradia o amor de Jesus. Tomé esta fora da comunidade, por isso não faz a experiência de Jesus ressuscitado e consequentemente não acredita no testemunho dos discípulos, “Tomé disse-lhes: Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. O encontro com Jesus transforma o nosso coração e nossa fé, Tomé ao fazer a experiência do ressuscitado na comunidade reunida, “Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles”, consegue chegar à plenitude do crer, agora ele reconhece o Senhor e seu testemunho é verdadeiro, cheio de amor, “Tomé respondeu: 'Meu Senhor e meu Deus!”.
Ao final do Evangelho Jesus diz que são bem-aventurados os que creram sem terrem visto, quem são estes bem-aventurados? como diz Santo Agostinho: “somos todos nós, e não somente nós, mas todos os que venham depois de nós”, pois nossa fé tem um grande mérito, de não necessitar de comprovações matérias para poder acreditar, mas pelo amor fazer a experiência do ressuscitado em nossa comunidade e chegar a fé verdadeira.    
Sem. Pablo Dourado

PÁSCOA DE RESSURREIÇÃO


Leituras:
Atos 10,34a.37-43;
Salmo 117/118;
Colossenses 3,1-4;
João 20,1-
A Igreja exulta de alegria porque Jesus venceu a morte e sua vitória é semente de esperança e farol luminoso que dá à nossa vida terrena uma luz que não se apaga e a certeza de uma vida que não morre.
Tudo o que nós cristãos acreditamos, encontra na Páscoa do Senhor sua razão. É a vitória sobre ‘o último inimigo do ser humano’ que nos permite viver neste mundo de forma diferente, porque a vitória de Cristo nos pertence, ela é também ‘nossa vitória’.
A Liturgia da Palavra hoje recorda, antes de tudo, a descoberta do túmulo vazio - “no primeiro dia da semana” -por parte das mulheres, do apóstolo Pedro e do ‘discípulo que Jesus amava’ (Evangelho). É uma ‘corrida’ ao túmulo que ‘vazio’ – ‘tiraram o Senhor do túmulo, diz Madalena - fala alto, e bastou o túmulo vazio e ‘o discípulo amado’ “viu e acreditou”: quem tem olhar transparente e vê com o coração, entende!
Não muito tempo depois, o apóstolo Pedro dá seu corajoso testemunho: “Nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém” (I leitura). Pedro faz um resumo da vida pública de Jesus, até os eventos finais da morte e da ressurreição. Acrescenta que é por ordem do mesmo Jesus que ele e os demais apóstolos “pregam e testemunham” tudo o que aconteceu com Jesus. Nisso, nós hoje encontramos as razões de nossa fé e a urgência de uma vida coerente com essa fé.
Por isso, o apóstolo Paulo (II leitura) recomenda aos seus cristãos: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto”. Mas, o que são ‘as cosias do alto’? Trata-se de viver cada momento da vida de forma nova, repleta de amor, de bondade, de dom-de-si mesmo. Você não está ligado às coisas do alto (só) quando reza (e... veja com quais atitudes reza!), mas se viver cada atividade e encontro com simplicidade, gratuidade, pureza de coração... amor sincero. Este é o fruto da Páscoa! As ‘coisas do céu’ não afastam da ‘terra’, isto é, da vida cotidiana,com suas fadigas e seus desafios, mas proporcionam um novo jeito de ser, repleto do amor de Jesus.
Páscoa é o evento que abriu novos horizontes na vida da humanidade. Por isso, “transbordamos de alegria pascal” (oração sobre as oferendas), porque foram abertas para nós “as portas da eternidade” (Oração do dia). A Igreja é convidada a cantar: “Salve, ó vítima pascal” Cordeiro inocente, o Cristo abriu-nos do Pai o aprisco” (Sequência).
A todas e todos, irmãs e irmãos, desejo que a festa de Páscoa seja repleta da alegria que vem de Deus e se transforma em amor concreto e empenho fiel de seguir a Jesus, participando sempre da Páscoa semanal, isto é, da Eucaristia ou da Celebração da Palavra, para alimentar a fé que brota da Ressurreição do Senhor Jesus.
Dom Armando

Bendito o Rei que vem em nome do Senhor


LEITURAS:
Is 50,4-7
Salmo 21
Fl 2,6-11
Lc 22,14-23,56

Inicia-se hoje, mais uma vez, a Semana Santa. Momento forte que nós cristãos católicos, de uma maneira muito especial, celebramos a paixão, morte e ressureição de Jesus Cristo. Nestes dias experimentamos de forma mais profunda esse mistério celebrado. Nele, nós procuramos sentir tudo aquilo que Jesus vivenciou e também os seus discípulos, angústias, tristezas, alegrias e esperança.
Ao ler o evangelho que narra a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, vimos que do início ao fim da vida de Jesus, seus ensinamentos e mensagens transmitidas com palavras e vida foram sempre no intuito de apresentar um triunfo diferente. Contrariando a lógica do mundo Jesus se apresenta sempre despojado dos artefatos do poder. Faz triunfar o amor, a humildade, a simplicidade, a benevolência, o serviço despretensioso e amoroso aos irmãos. Ao mesmo tempo o evangelho mostra uma acolhida por parte das pessoas pobres e humildes que veem em Jesus a manifestação do Filho de Deus. Jesus entra na Cidade Santa, no coração de Israel como um rei despojado, portando em si mesmo alegria e esperança, diante de um mundo que desprezava as pessoas mais desprovidas de dignidade.
Um aspecto curioso deste evangelho que abre a liturgia da Semana Santa é a tentativa que as autoridades fazem com relação aos seguidores de Jesus. Pedem insistentemente ao Mestre que faça os seus discípulos se calarem. Bela e profunda é a resposta que Jesus dá: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”. A ressonância desta mensagem é muito encorajadora e imperativa. Quem é discípulo de Jesus não pode se calar, ainda que alguém ou alguns queiram. O discípulo precisa ser corajoso e manifestar o que traz no coração. Não pode ser discípulo e permitir que as pedras, o silêncio da omissão contagie aquele que deve proferir palavras da verdade e libertação.
Neste domingo também a liturgia traz o evangelho da paixão de Jesus. É o mesmo que será lido na Sexta-Feira-Santa. Com ele a Igreja nos introduz no mistério do sofrimento de Jesus para juntos participarmos e revivermos tudo aquilo que aconteceu com o nosso Redentor. Ao adentrar na narrativa da Paixão do Senhor podemos fazer várias reflexões e tirar para nós muitos ensinamentos. A paixão de Cristo revela que a missão de Jesus no combate ao mal se deu do início ao fim da sua vida e, mais intensamente, no início até o fim da sua vida pública.
Jesus foi do início ao fim firme e determinado na luta contra as forças aniquiladoras do bem, do amor e da paz, das forças que destroem a vida humana em suas múltiplas formas de manifestação. Ao fazer isto Jesus nos ensina e encoraja a fazer o mesmo. Sendo vítima da injustiça, foi combativo incansavelmente na busca pela mesma. As estruturas humanas quando desprovidas do princípio do amor e do bem se tornam perversas, injustas e destruidoras. Assim, ao contemplarmos a paixão do Senhor, olhamos para nossa vida de cristãos e humanos que somos para avaliar se não estamos continuando a perpetuar através de nossos atos os modelos contrários aos ensinamentos do mestre.
Resultado de tudo foi a morte de Jesus como consequência da maldade fermentada na vida das autoridades e expandida na escolha da população, manipulada por quem detinha o poder. Tudo aconteceu há dois mil anos atrás. Entretanto, a humanidade continua a reproduzir em tantos momentos da nossa história esquemas de injustiças que ferem e que matam, assim como foi feito com Jesus de Nazaré. Rezemos neste dia, pedindo a luz divina que ilumine as nossas consciências, para que, através da nossa vida, possamos viver o discipulado como verdadeira e profunda escolha de quem encontrou no mestre Jesus o sentido para a vida, capaz de gerar o amor, a justiça e a paz. Que os caminhos da paixão nos conduzam a processos que nos levem a viver a Páscoa, como momento principal da libertação de que precisamos, para nós e para o mundo.
Padre Nicivaldo Evangelista.
 Pároco da Paróquia N. Sra. do Bom Sucesso Ibitiara e
Adm. da Paróquia S. do Bonfim de Boninal

4º DOMINGO DA QUARESMA


LEITURAS:
Js 5,9a.10-12
Salmo 33
2Cor 5,17-21
Lc 15,1-3.11-32

“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações (Is 66,10s)”. Com a antífona de entrada somos introduzidos na espiritualidade do 4º Domingo da Quaresma, conhecido também como Domingo Laetare, ou seja: Domingo da Alegria. O motivo dessa alegria é explicitado na Oração Coleta, que diz: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam cheio de fervor e exultando de fé”.
         O Evangelho que nos é ofertado pela liturgia é um uma joia literária; penso que podemos dizer que é a parábola bíblica mais conhecida. Durante muito tempo essa parábola foi denominada erroneamente como “a parábola do filho pródigo”, evidenciando a atitude do filho que esbanja os bens do pai. Atualmente, percebe-se que o tema central não é nenhum dos filhos, nem o que esbanja os bens, nem aquele que, mergulhado nos ciúmes, não se alegra com a volta do irmão. O tema central é, pois, a prodigalidade do pai, que é abundante no perdão e generoso na misericórdia, acolhendo a ambos os filhos, independente do motivo pelo qual se afastaram.
         Essa bela parábola está contida num conjunto de três parábolas, sendo precedida pelo relato da ovelha perdida e, depois, da dracma perdida. Ambas são encerradas com festa e alegria, pois o que estava perdido foi encontrado. A alegria é tão grande que não pode ser contida por uma única pessoa, assim, tanto o pastor como a mulher reúnem seus amigos e festejam. Se há tão grande alegria por uma entre cem ovelhas e por uma moeda entre dez, como não será a alegria de um pai que recupera o filho com vida? É isso que Jesus quer mostrar; o modo de Deus agir não é semelhante ao nosso. Deus é eterno em amor e misericórdia e acolhe a todos sem distinção. Jesus nos quer fazer enxergar que, melhor que murmurar, como os fariseus, que O criticavam por acolher e fazer refeições com os pecadores, é enxergar com os olhos de Deus, e alegrar com a proximidade desses irmãos que estavam dispersos.
         Na Segunda Leitura somos exortados: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus”. Neste tempo de Quaresma somos constantemente chamados à conversão. Cumpre lembrar que, a conversão só é possível porque Deus, em primeiro, volta-se para nós. A partir da iniciativa divina é que somos chamados à conversão e à reconciliação. Se somos novas criaturas, é em Cristo que o somos, pois é Ele quem renova todas as coisas. Assim, o nosso processo de reconciliação e conversão está sempre ligado Àquele no qual Deus realizou a reconciliação do gênero humano e no qual fomos enxertados pelas águas do Batismo.
A primeira Leitura recorda o fim do êxodo, a entrada do povo de Israel na terra prometida. Tendo concluído a dura caminhada, o povo entra na nova terra e se alimenta não mais do maná, que cai do céu, mas dos frutos abundantes da terra prometida. Isso indica um novo ciclo; é a celebração de quando o Senhor tirou o opróbrio do seu povo. Os sofrimentos e privações vividos no caminho do deserto não são um fim, mas um meio para se chegar à promessa. De igual forma, a penitência quaresmal não é um fim, mas um meio para que, purificados, possamos celebrar as alegrias pascais.
Celebrar a Santa Missa ou o culto dominical é fazer memória da história da salvação que tem em Cristo Jesus a sua culminância. Em Cristo, o Pai Misericordioso transborda abundantemente em bondade e amor. Cristo nos comunica a face desse Deus, que não quer perder nenhum de seus filhos; que não quer a morte do pecador, mas que ele viva. Cristo nos mostra que Deus está sempre de braços abertos, pronto para acolher sem julgar. Irmãos, voltemos para Deus! Eis o tempo favorável; o Senhor nos chama e acolhe, pois Ele é um Pai de Amor e Misericórdia. Por tanto, alegremo-nos no Senhor!
Sem. Júlio César

3º DOMINGO DA QUARESMA – ANO C


LEITURAS:
Ex 3, 1-8ª.13-15
Sl 102
1Cor 10, 1-6.10-12
 Lc 13, 1-9
“O Senhor é bondoso e compassivo”
A liturgia deste terceiro domingo da quaresma nos convida à conversão no seu tríplice sentido como ato livre, ato comprometedor e ato que custa. Assim, podemos trazer para a nossa vida o significado que esses atos nos trazem, visto que a conversão é um ato livre que o homem manifesta diante de Deus como aceitação e cumprimento das suas promessas; assim sendo, eis que surge a necessidade de um comprometer-se com as exigências para seguir o mestre, pois a conversão jamais poderá ser algo externo e temporário, muito pelo contrário, é a passagem da fé herdada para uma fé conquistada e professada, e assim, se concretiza com o ato que custa a cada um que decide seguir esse caminho que é longo e difícil.
Na primeira leitura nos é apresentada a missão que Moisés recebeu de Deus, neste texto está presente a história da salvação que apresenta o cumprimento da promessa feita a Abraão, em continuidade à liturgia do domingo passado, mostrando assim, o rosto misericordioso de Deus que escuta o clamor do seu povo e vai em socorro destes, pois, a iniciativa é sempre de Deus que se faz presente na vida humana e se compraz das dores e sofrimentos que atormenta o coração humano. Moisés recebeu de Deus não apenas o chamado, mas também a identidade e confirmação de que o nosso Deus não é um deus estranho, mas aquele que nos acompanha desde a eternidade, pois quando sabemos a quem seguimos não importa a distância a ser percorrida, mas a certeza de que o sofrimento será superado pela alegria de trazer no coração o nome de Deus “Eu Sou aquele que sou”.
No evangelho, ao mesmo tempo em que Jesus fala de misericórdia, também fala do arrependimento. Narra um fato histórico de difícil compreensão (o que aconteceu com os galileus e a torre de Siloé?), diante disso Jesus apresenta um ensinamento, e sua fala recorre a própria época, ou seja, o tema do “arrependimento”. Em seguida, Jesus conta a parábola da figueira estéril (eis que a figueira é símbolo de Israel, Natanael estava debaixo da figueira quando Jesus o encontra, e este, representa Israel) para mostrar a misericórdia e a paciência de Deus mediante as atitudes humanas, e assim, nos mostra qual atitude devemos ter para com aqueles que fazem parte da comunidade cristã. De tal modo como a planta precisa de cuidados e proteção para produzir, também necessita de cuidados o ser humano, pois a fé é uma semente que deve ser cuidada diariamente e cada árvore dará o fruto no seu tempo, tempo de conversão, tempo de arrependimento, tempo de escuta e seguimento do chamado de Deus, e assim, produzir frutos que sejam capazes de saciar o coração sedento do amor de Deus evitando uma vida estéril e vazia de sentido.
Na segunda leitura, ouvimos do apóstolo Paulo que não basta apenas estar de pé, faz-se necessário o cuidado para não cair. Assim, não basta apenas dizer que é cristão se não professar a fé na vida, não basta ser batizado, é necessário entrar debaixo da nuvem, atravessar o mar e beber do rochedo espiritual que é o próprio Cristo, a verdadeira fonte da vida.
Eis o tempo favorável para cultivarmos no terreno do nosso coração a figueira que produz frutos bons, e que o tempo no qual estamos vivendo nos seja também propício a uma verdadeira conversão de vida e de abraçar as causas que nos coloca no caminho da penitência, do jejum e da oração, e assim alimentados, possamos irradiar nos corações dos nossos irmãos o amor misericordioso e paciente de Deus.
Élcio Bonfim Neves
3º Teologia