Na reforma
litúrgica que seguiu ao Concílio Vaticano II, um rito foi retomado e acompanha
as nossas celebrações litúrgicas e que, em sua simplicidade, manifesta importante
valores da vida humana e cristã. Refiro-me ao rito da paz que, na tradição litúrgica romana, que nós
seguimos, é realizado depois do Pai-Nosso, do embolismo e da doxologia.
Se na celebração estiver presente um diácono ou, em sua ausência, quem preside
ou um dos concelebrantes, diz: “Meus
irmãos e minhas irmãs, saudai-vos em Cristo Jesus” (cf. Instrução Geral do
Missal Romano, 154).
A IGMR observa que, com este rito, “a Igreja
implora a paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana e os fiéis
exprimem entre si a comunhão eclesial e a mútua caridade, antes de comungar do
Sacramento” (n. 82).
Esse rito encontra sua origem nos ensinamentos de Jesus:
Quando estiveres levando a tua oferenda
ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua
oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então,
vai apresentar a tua oferenda (Mt 5, 23-24). A paz (o hebraico shalom) que
Jesus deixou deve ser o sinal distintivo dos seus seguidores; a sua paz é dom
precioso e original; diferente da paz do mundo: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é à maneira do mundo que eu a
dou (Jo 14,27).
São Paulo, escrevendo aos Romanos diz: Saudai uns aos outros com o
beijo santo (Rm 16,16); o mesmo diz aos
Tessalonicenses (1Ts 5,26); aos Coríntios (15, 20; 2Cor 13,12. A praxe do beijo santo entrou na liturgia cristã
como sinal de fraternidade e comunhão. São Justino mártir, pelos anos 150,
escreve: “Terminadas as orações, saudamo-nos com o ósculo” (Apologia I, 65,2). Seu lugar mudou ao
longo dos séculos e, como acontece ainda hoje, segundo os diferentes ritos litúrgicos.
Já entre o IV e V século, como atestam Santo Agostinho, em Roma prevalece sua
colocação como preparação à comunhão eucarística e, no final do século V, o
papa São Gregório o estabelece antes e como sinal de reconciliação antes da
comunhão.
Os Padres da Igreja insistem a respeito do seu sentido
mais profundo. Por exemplo, São Cirilo de Jerusalém escreve: “Não pense que o
beijo de paz seja do mesmo gênero que os beijos que os amigos se dão entre eles
na praça. Nada disso. Mas, esse beijo une os ânimos entre eles, e manifesta o
empenho da ausência de todo ressentimento” (V Catequese mistagógica, 2-3); Santo
Agostinho recomendava: “O que é mais importante dizendo ‘paz’ é que se realize
na consciência o que os lábios exprimem”; e Santo Ambrósio recomendava:
“Comecem em si mesmos a obra da paz, assim, uma vez pacificados consigo mesmos,
levarão a paz aos outros”.
A história desse gesto de paz é
complexa e diferente segundo os ritos. Constatamos, porém, sua decadência ao
ponto de ser limitado só nas missas solenes e entre os ministros: Pax tecum: ‘A paz esteja contigo’; o
outro respondia: Et cum spiritu tuo: ‘E
com o teu espírito’; usava-se, também, objetos (imagens sagradas, relicários
etc.) para enviar a paz a algumas autoridades ou aos cantores. A reforma
conciliar recolocou em uso esse sinal, segundo seu sentido originário: os que
pretendem participar da mesma Comunhão, antes, procurem estabelecer e viver a
comunhão entre si.
A IGMR, 82 (cf. também, 390)
deixa às Conferências dos Bispos a liberdade de definir o modo mais conveniente
de realizar o rito da paz, “de acordo com a índole e os costumes dos povos”; recomenda-se,
todavia, que no rito “cada qual expresse a paz de maneira sóbria apenas aos que
lhe estão mais próximos”.
A CNBB, já em sua décima primeira Assembleia Geral de
1970, decidiu que “o rito da paz seja realizado por cumprimento entre as
pessoas do modo com que as mesmas se cumprimentam entre si em qualquer lugar
público”. E no Documento 43, Animação da vida litúrgica no Brasil (n. 312) reconhece que
“espontaneamente as nossas comunidades acolheram e perceberam o rito da
saudação da paz como momento de confraternização alegre em Cristo. É momento
privilegiado para realçar o compromisso da comunicação da paz a todos indistintamente.
Paz recebida como dom”. Contudo, observa que “seria conveniente não reralizar o
rito da paz sempre da mesma maneira, mas, pelo contrário, usar da criatividade
e variar”. Ao dizer que a saudação da paz poderia ser simplificada ou omitada,
por exemplo, nos tempos penitenciais ou deslocada para outro momento da
celebração. Propondo que seja colocada no final da celebração, assim o
Documento se expressou: “Deixado para o fim da Missa [a saudação da paz se torna um] gesto de
despedida ou cumprimento (pêsames, parabéns etc)”.
Por diferentes
motivos, ligados ao gesto que pede atenção à pessoa com que se comunica, não é oportuno
cantar enquanto se realiza esse rito, mas vivê-lo com olhar e coração
transparentes, num contato que manifeste o desejo sincero de acolher o outro e
partilhar o dom da paz que de Deus recebemos.
Dom Armando
