Quarta-feira de cinzas

Leituras:

    Joel 2,12-18;
    Salmo 51/50;
    2Corintios 5,20-6,2;
    Mateus 6,1-6.16-18


A Igreja nos propõe um tempo ‘forte’ de preparação à Páscoa, a festa maior de nossa fé, memória da morte e ressurreição do Senhor Jesus. É a Quaresma: 40 dias (excluindo os domingos) de mais intensa espiritualidade para retomarmos vigor na caminhada de discípulos de Jesus e para fazermos uma revisão da própria vida.

O povo de Deus da primeira Aliança caminhou por 40 anos pelo deserto; o profeta Elias foi andando por 40 dias deserto adentro; Jesus ficou 40 dias no deserto. A nós, também, é recomendado ‘fazer deserto’ para ver “o que temos no coração” (cf. Dt.8,2). Uma palavra retorna com insistência nestes dias: conversão, isto é, rever a própria vida com suas escolhas e se estamos trilhando caminhos de fidelidade. O Senhor nos pede seguir, com coerência, a sua Boa-Nova, fonte de alegria e vida.
A liturgia da quarta-feira de cinzas é marcada por gestos e palavras que vêm de longe, mas que mantêm sempre um profundo sentido para os cristãos de hoje. O austero rito da imposição das cinzas na cabeça quer recordar “que somos pó e que ao pó voltaremos”. A Igreja nos convida a ‘avaliar os nossos dias’, sem superficiais ilusões. Isso não quer dizer desprezo às belezas e alegrias da vida, mas a urgência de buscar o que a torna mais autêntica e verdadeira. 

Eis, portanto, a necessidade de conversão para saber discernir o que vale mesmo em nossos dias terrenos. O apóstolo Paulo (II leitura) diz que chegou “o tempo favorável, é agora o dia da salvação”; abre-se o caminho para a reconciliação com Deus e de novo relacionamento com os irmãos. Então, cada um(a) veja o que deve mudar em sua vida. Talvez, é aquele hábito errado, aquela relação ambígua, ou a dependência do jogo, do celular, do álcool; o costume de espalhar críticas, a acomodação e a indiferença... Seja este tempo de renovação interior, de mudança íntima e coerente com a fé que professa!

O evangelista Mateus (Evangelho) recorda que não basta cumprir -  para se mostrar - as práticas religiosas de dar esmola, rezar e jejuar. O que mais conta é ‘o coração’, isto é, o motivo interior do agir. Se for para receber elogios humanos, então, você ‘já recebeu a sua recompensa’. Tudo o que fizer, insiste Jesus, seja feito com simplicidade, humildade, e somente o Pai “que vê no segredo” deve saber.

Toda escolha pessoal tem um reflexo social, comunitário. No bem e no mal, nós somos interligados por fios também sociais, culturais, religiosos. A leitura do profeta Joel (I leitura) reflete um tempo de calamidade pública: uma enorme invasão de gafanhotos tinha destruído tudo deixando o povo com fome e no desespero. Por que Deus permitiu isso? O povo toma consciência de que se afastou do projeto de Deus! Esse evento é vivido como chamado a mudar de vida, a ser mais fiéis aos compromissos da Lei. Todo evento não é ‘castigo’ divino, mas mensagem de conversão. 

Nestes dias, penso: o que o coronavirus está dizendo à nossa humanidade? Com certeza, são muitos ensinamentos que podemos receber. Por exemplo, que somos frágeis e que a ciência e seus instrumentos são úteis e importantes, mas limitados. Nossa autossuficiência soberba é arrogante é logo derrubada; o ‘delírio de onipotência’ dos últimos séculos da sociedade ocidental é derrubado.  Tudo o que acontece, ensina Jesus (cf. Lucas 13,1-5) é convite para a conversão, para descobrirmos valores capazes de dar, ontem, hoje e sempre, sentido e sabor aos nossos dias.

Deus continue ‘criando em nós um coração novo” (Salmo)! E sejamos capazes de justiça, solidariedade, acolhida e amor. Entraremos, desse modo, no espírito da Campanha da Fraternidade que, neste ano, fala de vida como “dom e compromisso”. Aumentemos a capacidade de ‘ver, sentir compaixão e cuidar” dos irmãos e irmãs que caminham conosco, sobretudo dos que mais sofrem. Então, a Páscoa será de verdadeira ressurreição, porque: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3,14). 

Dom Armando